O HOMEM DOS MEUS SONHOS
Sabrina ...a cegonha chegou! n64
Copyright: Karen Rose Smith
Ttulo original: "Just The Man She Needed"
Publicado originalmente em 2000
Digitalizao/ Reviso: m_nolasco73

 


Ele era o homem de quem ela precisava

Contra capa: Surpreendido por uma tempestade de neve, o caubi solitrio Raymond Coleburn procurou abrigo na Fazenda Double Ranch. Mas, ao encontrar a linda, e grvida, Annebelle Lawrence cuidando sozinha da propriedade, sentiu-se no dever de ajud-la. No demorou muito para sentir-se em casa... e deslumbrado com os beijos dela...

Annebelle no estava preparada para sentir as emoes que Raymond lhe despertava. Afinal, tinha um filho pequeno e estava em vsperas de dar  luz o segundo. Embora o carinho de Raymond envolvesse como um blsamo o combalido corao de Annebelle, ela sabia que ele no ficaria para sempre. A no ser que conseguisse convenc-lo de que ela era a mulher de quem ele precisava...


CAPTULO I

A despeito da neve que caa cada vez mais forte contra o pra-brisa de sua caminhonete, Raymond Coleburn avistou o que imaginou ser um celeiro, graas  iluminao no topo do telhado.
Mas a neve no o preocupava tanto quanto o tanque de gasolina. Imaginou que teria mais uma chance de abastecer, porm a ltima parte da estrada em Montana no lhe fornecera nenhuma oportunidade para comer, ou um posto de gasolina. 
Faltava cerca de uma hora para chegar a Billings, seria impossvel faz-lo com o combustvel que restava. Ficar parado em uma estrada deserta debaixo daquela tempestade fortssima tambm era loucura. E Raymond sabia bem como agir em situaes de emergncia.
No momento, contudo, a nica soluo sensata era encontrar abrigo para a noite, em qualquer lugar que fosse, e arranjar gasolina para o veculo.
Avistou uma placa de madeira e estreitou os olhos para conseguir ler o nome da propriedade: Fazenda Double Blaze.
A estradinha de acesso terminava em um sobrado com uma grande varanda. A casa era bastante velha e malcuidada, Raymond observou, logo que saiu da picape e se ps a subir os degraus, que rangiam a cada passo dado. Havia muito a consertar ali, de modo que poderia barganhar, se fosse o caso.
Tocou a campainha, que, como era de se esperar, no funcionou. Ento, abriu a porta de tela que deveria ter sido trocada antes da chegada do inverno. Bateu com fora e esperou alguns instantes.
- Ol! - comeou, assim que algum abriu apenas uma fresta. - O combustvel do meu carro est acabando. Gostaria de saber se voc tem um pouco de gasolina de reserva, ou talvez algum lugar onde eu possa passar a noite.
- Sinto muito - respondeu uma voz doce -, mas no tenho nada de que o senhor precisa.
Raymond ainda no conseguia enxerg-la, e sups que deveria estar sozinha ali.
- Sei que deve tomar muito cuidado com pessoas estranhas que chegam sem avisar, mas, se quiser, pode apontar uma arma para mim at que eu lhe mostre meu documento de identidade.
O vento trouxe mais neve para a varanda. E tambm mais frio.
Os instantes que ela demorou para aumentar um pouco mais a fresta pareceram uma eternidade.
- Sua identidade no ser muito til de voc quiser assaltar minha residncia ou nos molestar.
- Senhorita...
- Senhora - corrigiu. - Annebelle Lawrence.
Raymond sorriu, pois as boas maneiras daquela mulher faziam com que se apresentasse a um completo desconhecido.
- Sra. Lawrence, tenho algumas referncias comigo. Quer v-Ias? 
De repente, ela perdeu toda a reserva.
- Se quisesse nos machucar, voc j teria tido oportunidade. Entre para se aquecer um pouco.
Quando Raymond atravessou a soleira, avistou uma linda jovem, alta, de cabelos castanhos e olhos grandes. E estava nos ltimos meses de gravidez.
- Agora compreendo o porqu de tanta cautela.
Ao tirar o chapu, Raymond sentiu um puxo no casaco.
- Mame me falou para ficar quieto no canto da sala.
Raymond olhou para baixo e viu um belo garoto, que parecia ter uns sete anos. Tinha os olhos da me, mas cabelos mais escuros. Abaixou-se para conversar com o menino.
- Ela estava tentando proteger voc.
- Quer uma bolacha? Foi mame que fez.
Sorrindo, Raymond se endireitou.
- No vou abusar da boa vontade dela. Como eu disse, s preciso de um lugar para passar a noite.
Annebelle Lawrence entrelaava as mos sobre o ventre. Observou o filho, depois Raymond. Usava um vestido de l azul com uma malha branca por baixo. Fazia bastante frio ali dentro, e ele suspeitou que o estoque de lenha terminara.
Analisando a sua volta, notou que a cozinha estava impecvel, apesar de precisar de pintura. As portas dos armrios tinham de ser trocadas com urgncia.
A julgar pelos anos de experincia, desde que deixara o orfanato em Tucson, Raymond podia afirmar que Annebelle usava o fogo a lenha para aquecer o ambiente, diminuindo, assim, os gastos com energia.
- Posso rachar lenha, caso queira. Ou pagar pela estada.
- No posso aceitar dinheiro por hosped-lo em um celeiro. - Annebelle foi at a despensa e pegou uma lata de biscoitos.
Mesmo parecendo estar no nono ms de gravidez, ela se movimentava com muita graa e elegncia. Era esbelta e, pelo visto, engordara apenas o necessrio. Seria casada?
- Seu marido saiu? - perguntou Raymond, sem conseguir se conter.
Aps abrir a tampa da lata, Annebelle ergueu o queixo e o estudou por alguns instantes.
- Sou viva.
A resposta o surpreendeu, sem dvida. Deveria ter acontecido no ano passado. Ser que Annebelle cuidava sozinha do rancho?
As perguntas assomavam sem controle, mas Raymond achou melhor no se intrometer.
- Mark, pode pegar a garrafa trmica para a mame, querido?
- Claro - respondeu o pequeno com um grande sorriso.
Assim que o menino entregou-lhe o que lhe fora pedido, ela disse:
- Agora, suba e vista seu pijama. Est na hora de ir para a cama.
- Mas, mame...
- Como voc se chama? - interrompeu-o Annebelle, dirigindo-se a Raymond.
- Raymond Coleburn.
- Querido, Raymond vai dormir no celeiro. Voc no vai perder nada, pois ele j est indo para l. Portanto, obedea-me e prepare-se para dormir.
Com um suspiro resignado, indicando que sempre obedecia a me, Mark foi at a sala e subiu a escadaria.
Annebelle abriu a garrafa e colocou algumas colheres de caf.
- Desculpe-me, mas s tenho caf instantneo. Aceita um pouco de leite?
- No precisa me dar nada, sra. Lawrence.
- Annebelle. Quando foi a ltima vez que comeu?
- Por volta do meio-dia.
- Bem, so quase nove da noite. Tenho algumas fatias de carne para um sanduche.
- Seria muito gentil de sua parte. E prefiro caf preto.
Movimentando-se com eficincia e rapidez, Annebelle preparou um sanduche e o embrulhou em papel alumnio.
- Para onde estava indo, Raymond?
- Billings. Pelo menos por enquanto.
Annebelle o estudou por um momento, analisando seus trajes de caubi.
- A negcios?
Raymond suspeitava que ela tentava descobrir se no cometera um erro permitindo que entrasse em sua casa.
- Estou procurando uma pessoa. E tambm trabalho. Posso fazer qualquer coisa.
Annebelle fechou a garrafa trmica, embrulhou algumas bolachas e colocou-as junto com os lanches.
- No posso lhe pagar, Raymond.
- Acomodao e comida so mais do que suficientes.
Como no houve resposta, Raymond preferiu no insistir, e guardou sua improvisada refeio no bolso. Quando esticou a mo para pegar a garrafa, seus dedos se tocaram e, por um momento, nenhum dos dois se moveu.
Annebelle estava grvida e frgil, portanto, no havia motivos para o corao de Raymond disparar. Ela logo se afastou.
- Espere um instante. Vou pegar um cobertor.
-  mesmo muita bondade sua - agradeceu ele.
Esperou alguns instantes at que a viu aparecer com duas mantas.
- Por que voc permitiu que eu entrasse, Annebelle?
- Quando escutei algum chegando, comecei a rezar. Ento, ouvi meu corao e segui meu sexto sentido, e resolvi deix-lo entrar.
No era bem a resposta que Raymond esperava ouvir. Definitivamente, aquela belssima mulher, grvida e com um filho pequeno, o perturbava.
Caminhando at a sada, se virou, antes de abri-la.
- Cortarei lenha para voc amanh cedo. - Apontou-lhe o dedo e abriu um belo sorriso. - E no abra a porta para mais nenhum estranho.
Quando Raymond a viu sorrir, todo o mundo se resumiu quele momento. Entretanto, procurou se convencer de que estava apenas cansado da longa viagem.
Desceu os degraus e seguiu para o celeiro, imaginando que coincidncia do destino o levara at l... e por qu.

Na manh seguinte, Annebelle acordou antes do nascer do sol, sabendo que havia algo diferente. Logo se lembrou: um homem dormia ali perto.
Um estranho, muito alto, com cabelos castanhos, olhos azuis e uma voz que lhe causava o mesmo torpor do conhaque que experimentara uma vez.
Fazia tempo que no dormia to bem, to sossegada. Seria por Raymond Coleburn estar em seu celeiro?
Quando fora a ltima vez que um homem a fizera sentir-se segura? Quando seu pai era vivo, respondeu seu corao.
A Fazenda Double Blaze fora de seu pai e, antes, de seu av. Quando se casou com Pete Lawrence, mudaram-se para l, junto com o pai dela. Entretanto, alguns meses aps a unio, Annebelle percebeu que Pete se casara porque queria uma pessoa que cuidasse dele.
Trabalhava com o sogro, mas fazia o mnimo possvel, e s quando necessrio. Tendo terminado a faculdade e sentindo muito a falta da me, que morrera alguns anos antes, Annebelle queria constituir uma famlia e dar ao pai os netos com que sempre sonhara. Mas no soubera escolher.
Lembrar-se de seu casamento com Pete ainda lhe causava bastante tristeza.
O beb chutou-lhe a barriga, e Annebelle disse a si mesma que no poderia perder tempo com autocomiserao. Tinha de estar muito bem preparada e bem-disposta para quando seu segundo filho nascesse.
Se houvesse complicaes, ou no conseguisse mais cuidar do rancho sozinha, decerto teria de vend-lo. No via outra opo.
Como no tinha o costume de ficar na cama, mesmo grvida, Annebelle levantou-se e vestiu uma cala jeans e uma malha vermelha. Ento, foi at o quarto de Mark e abaixou-se para beijar-lhe a testa.
- Querido, vou ao celeiro falar com o sr. Coleburn, mas voltarei logo.
- Quero ir com voc - disse ele, sonolento.
- Agora, no. Tente dormir mais um pouco at que eu volte. - Tornou a beij-lo e desceu.
A capa que usara durante os ltimos seis meses j no fechava mais. Ficaria to contente quando o beb viesse ao mundo... Mais trs semanas e poderia ver seus ps de novo!
Depois de calar as botas, que tambm a apertavam, Annebelle saiu de casa e deparou-se com um sol maravilhoso iluminando a neve branca.
Protegendo os olhos da claridade que quase a cegava, percebeu que o vizinho j desobstrura o caminho de sua residncia. Tudo parecia puro, tranqilo e branco.
Annebelle sempre sentia o mesmo sobre a fazenda no inverno. Uma grande alegria. Alguns fazendeiros temiam a estao, que costumava trazer vrios problemas, mas adorava a estao do frio em Montana, bem mais do que a primavera, o vero e o outono.
As folhas das rvores balanavam com o peso do gelo, notou Annebelle ao seguir com cuidado por uma passagem ao lado do galpo, em direo ao celeiro.
Agora sua ateno era redobrada com tudo que fazia. O nen a levava a agir assim... e no via a hora de dar as boas-vindas quela nova criatura que traria  existncia.
Abrindo a pequena porta na lateral, entrou. Amava o cheiro daquele lugar, como tambm a vista do rancho, com seus cavalos, o feno, a terra molhada... coisas cotidianas que no existiam nos centros urbanos.
A luz solar entrava atravs das grandes janelas congeladas, criando formas e sombras, iluminando montes de feno e nuvens de poeira.
Um relincho foi tudo o que escutou at se dar conta do som abafado na outra extremidade. Sabia muito bem do que se tratava.
Passou pelo estbulo vazio e avistou os dois cobertores que emprestara a Raymond Coleburn dobrados sobre uma caixa de madeira. Alimentou os cavalos e ajeitou algumas coisas, depois abriu o porto que dava para o curral e seguiu o caminho coberto de neve at a lateral.
Raymond no a escutou aproximar-se por estar muito concentrado cortando lenha. Mas algo o alertou da presena de algum, pois parou e virou-se.
- Bom dia! - cumprimentou-a sorridente.
- Bom dia para voc tambm. No se preocupe em fazer esse servio. J lhe disse que no me deve nada.
- E eu escutei, mas, para mim, a generosidade  algo que trato com muito respeito.
Os vizinhos foram muito simpticos aps a morte de Pete, mas Annebelle jamais aceitaria caridade. O fato de ele estar cortando lenha como forma de pagamento protegia seu orgulho, e Raymond Coleburn parecia bastante sensvel para perceb-lo.
- Voc no deveria estar aqui, Annebelle. - Raymond indicou a capa aberta. - Faz muito frio.
- Os animais precisam se alimentar mesmo que a temperatura esteja abaixo de zero.
Os olhos azuis a fitaram por um longo instante.
- Pretende cuidar desta fazenda sozinha?
- Sim, at achar uma soluo melhor. Talvez precise vend-la.
Um corretor viera, alguns meses atrs, e deixara seu carto.
Raymond meneou a cabea, mas no falou mais nada.
- Quer comer algo, Raymond? Aposto como Mark j est de p. Ele queria vir comigo para ver o que voc estava fazendo.
- Quantos anos tem seu filho?
- Sete.
- Deveria t-lo deixado vir. A presena de crianas no me incomoda.
Pete no gostava de ter o menino a seu lado, dizendo que o atrapalhava, que lhe tirava a concentrao com as perguntas que fazia.
- Voc tem muito contato com crianas? - Annebelle quis saber.
- No desde que eu era garoto - respondeu ele, sem acrescentar nada.
Uma brisa fria soprou ao longo do curral, apitando nos beirais.
Annebelle esfregou os braos para manter-se quente.
- E ento, posso colocar um lugar  mesa para voc?
- Lgico! Mas terei de encontrar outra maneira de retribuir.
Quando Annebelle notou a diverso em seu olhar, sorriu com a provocao. Quanto tempo fazia que um homem no a provocava? Pete no costumava agir assim.
Antes de comear a pensar muito no passado ou em Raymond, Annebelle virou-se e voltou para a residncia.

- Raymond passou frio no celeiro durante a noite, mame? Ele vai ficar conosco? Sabe andar a cavalo?
Vinha uma aps a outra, impedindo-a de responder direito. De algumas Annebelle nem sabia a resposta, e disse ao filho que teria de indagar ao prprio Raymond. Ento, veria se ele tinha ou no pacincia.
Annebelle preparou ovos mexidos, fritou bacon e aqueceu seu po caseiro no forno. Tudo estava pronto quando Raymond entrou.
- O cheiro est maravilhoso! - Ele pendurou seu chapu e sobretudo no gancho ao lado da porta.
Quando ia colocar os ovos mexidos em uma travessa, Annebelle olhou para Raymond e foi incapaz de continuar seu movimento. Ele usava uma camisa de flanela azul e uma cala jeans justa o suficiente para delinear seus msculos perfeitos. Seus ombros eram largos mesmo sem o agasalho. Podia-se dizer que era perfeito: bonito, de feies marcantes e, sem dvida, um corpo maravilhoso.
Annebelle tentava se convencer de que a sensao em seu estmago se devia ao beb se mexendo, e o calor nas faces, aos hormnios.
Mark o crivou de perguntas, repetindo, inclusive, as que tinha feito  me. Mas Raymond no pareceu se incomodar. Respondia com "sim", "no", "talvez". Olhou para Annebelle antes de puxar uma cadeira, um pedido de permisso para sentar-se.
- Acho que o rancho necessita de alguns reparos, ainda mais o celeiro.
- Eu j lhe disse que no posso pagar, Raymond.
Ela colocou o prato na frente dele, incomodada por seu corao estar batendo to depressa, imaginando por que nunca sentira algo parecido antes.
- Eu tambm j lhe falei que um canto para dormir e um pouco de comida bastam. Posso cuidar das tarefas mais pesadas. Voc no acha que vai continuar fazendo tudo isso at o dia de o beb nascer, no ?
- Tentarei. At agora no tive problemas. E Mark me ajuda bastante. - Depois de servir o filho, Annebelle sentou-se na frente de Raymond. - Ns costumamos rezar antes das refeies.
Raymond deu de ombros.
Logo aps aprece de agradecimento, Annebelle se dirigiu a Mark:
- Acho melhor se apressar para no perder o nibus, filho.
- Que tal verificar minhas referncias antes de tomar alguma deciso? - Raymond resolveu dar continuidade  conversa.
- Est to difcil encontrar trabalho?
- Sim, quando no se sabe ao certo quanto tempo se vai ficar no lugar.
A julgar pelas palavras dele, Annebelle julgou que se tratava de um andarilho. No sabia quais suas intenes, e muito menos se devia question-las. Andava muito curiosa desde a vspera.
- Tudo bem, Raymond. Vou fazer os telefonemas depois de levar Mark at o ponto de nibus. E, antes que voc se oferea, muito obrigada, mas ningum pode fazer isso.  um pequeno ritual que temos. Preciso v-lo dentro do nibus e acenar-lhe todas as manhs.
De repente, a expresso de Raymond evidenciou uma certa mgoa.
Annebelle notou nostalgia naquele olhar, e imaginou o que a teria causado. Mas, o que quer que fosse, desapareceu com a mesma rapidez que os ovos mexidos de seu prato.

Quando voltou do ponto de nibus, Annebelle preparou um pouco de massa de po. Tinha escutado o barulho da machadinha ao voltar pela estrada coberta de neve e sups que Raymond Coleburn iria cortar um pedao bastante grande de madeira.
Sorriu, entretida com a determinao dele. A lenha seria muito bem-vinda quando o beb chegasse, pois no poderia deix-lo sozinho na casa.
Enquanto a massa crescia, Annebelle fez alguns telefonemas para checar as referncias de Raymond. Havia trs nomes e trs endereos, dois em Idaho e um no Wyoming. Um era uma construtora; os outros dois, fazendas. Todos os empregadores reiteraram o que se lia nas cartas: Raymond Coleburn era uma pessoa correta, digna de confiana e ficava at terminar o servio.
"Mas depois vai embora..."

Apesar da determinao em fazer tudo o que planejara, Annebelle foi ficando mais e mais cansada com o passar das horas. Ainda assim, fez uma panela de sopa para o almoo e assou o po.
Raymond apareceu por volta das onze horas, quando ela tirava a sopa da panela.
- Precisa de ajuda?
- No, est tudo pronto.
- Voc levou essa panela sozinha do fogo at a pia?!
Annebelle lanou-lhe um olhar agastado, mas Raymond nem se afetou.
- No sabe que mulheres grvidas devem se cuidar, Annebelle?
Aquele homem era a prpria voz de sua conscincia, fazendo-a pensar em seu prprio bem. Sendo assim, tomou a deciso que achou a mais correta.
- Telefonei para as referncias que voc me deu, Raymond. Se quiser, posso lhe dar cama e comida. em troca de uma srie de tarefas e reparos. H um quartinho no final do corredor com uma cama de solteiro. Poder dormir ali.
Indo at a pia, Raymond lavou as mos e enxugou-as no pano de prato. Annebelle estava diante do fogo, e Raymond, bem perto.
- Que tipo de marido voc tinha, para estar to acostumada a fazer tudo sozinha?
- No  de sua conta. - Annebelle sempre fora uma pessoa muito reservada, por isso irritou-se. - S porque vamos dormir sob o mesmo teto no significa que voc tem o direito de se intrometer em minha vida.
Os sentimentos desconhecidos que a dominavam, a excitao agitada que acelerava sua respirao e secava-lhe a boca, a amedrontavam.
- Est bem. - Raymond no parecia ter ficado aborrecido. - Um no se mete na vida do outro. Acho timo.
Suspirando, Annebelle lanou-lhe um olhar cauteloso. No fora essa sua inteno. Dali em diante, ele decerto no lhe contaria mais nada.
- Raymond esticou a mo para pegaras cumbucas de sopa ao mesmo tempo que ela, que evitou o contato.
- Vou apanhar o po - murmurou Annebelle.

Durante a tarde, Raymond aproveitou o lindo dia para se familiarizar com o rancho. Na hora do almoo, descobrira que Annebelle teria o beb em trs semanas. Ela tambm lhe contara que possua quarenta cabeas de gado e que um vizinho lhe fazia as compras desde que seu marido morrera. Em troca, ela lhe enviava pes e bolos, como forma de agradecimento.
Era uma cabea-dura, mas Raymond tinha um desejo irracional de saber tudo a respeito dela. Entretanto, sups que isso talvez no acontecesse, por Annebelle ser uma pessoa muito introspectiva. E ficava se repetindo que no tinha cabimento estar atrado por uma mulher perto de dar  luz. Mesmo assim, no conseguia impedir o calor que lhe invadia as entranhas quando estava perto de Annebelle.
Raymond limpava as cocheiras no celeiro quando Mark apareceu correndo, depois da escola.
- Mame falou que eu posso ficar aqui olhando, se voc deixar.
- Tudo bem. - Sorriu para o garoto. - Na verdade, pode me ajudar, se quiser.
- Mame falou que vai ficar aqui, Raymond. Por quanto tempo?
- Ainda no sei direito.
- Logo, logo vou ter um irmo, ou uma irm.
- Eu sei. Est contente com isso?
- Acho que sim. Mas s vou saber quando ele ou ela nascer.
Raymond caiu na risada, e a conversa continuou assim at a hora do jantar.
Mark era uma criana acessvel, curiosa e esperta, o que o fez imaginar como seria o pai. Porm, no se atreveria a fazer esse tipo de pergunta ao menino. 

Depois da refeio, Mark quis saber se Raymond gostaria de jogar com ele.
- No se sinta na obrigao - interveio Annebelle.
- No tenho nada melhor para fazer agora, a no ser que voc queira que eu faa a previso do tempo - respondeu ele com o discreto bom humor que Annebelle comeava a reconhecer.
- Est bem, mas s por uma hora, seno amanh Mark no conseguir acordar para ir  escola.
O beb no se mexera muito desde cedo, e a dor nas costas comeou  tarde. Annebelle imaginou que poderia ter sobrecarregado alguns msculos ao pegar a panela de sopa, mas o desconforto perdurou durante o jantar.
Quando sentou-se no sof para ver os dois jogando, colocou uma almofada nas costas para tentar ficar mais confortvel. E, com Mark falando sem parar, no havia espao para conversas pessoais.
As nove horas, Annebelle levou o filho para cima e leu para ele uma histria, como de costume.
- Mame, Raymond pode subir para me dar boa-noite?
- Voc j lhe disse boa-noite, filho.
- Sei disso, mas no  a mesma coisa. Por favor, mame...
Annebelle no podia dar muito ao menino no aspecto material, mas amor e afeio no lhe faltavam. E pelo visto agora Mark queria ateno de outra pessoa.
- Vou falar com ele, mas talvez j tenha ido dormir.
- Duvido. Raymond no iria para a cama antes de mim.
Annebelle tambm achava isso, mas pelo menos podia torcer para que sim.
A dor piorou ao descer as escadas, mas Annebelle continuou tentando ignor-la. No poderia ser o beb. Ainda tinha trs semanas pela frente, e Mark nascera dez dias depois da data prevista. Passou pela cozinha e seguiu pelo corredor at chegar no quarto de Raymond.
Sabendo que o filho ficaria desapontado se no pedisse para ele subir, Annebelle tentou escutar algum barulho para ver se ainda estava acordado.
- Raymond? - Deu uma batida, alguns instantes depois.
Em um segundo, ele abriu a porta.
- Aconteceu alguma coisa, Annebelle?
Raymond tinha dobrado as mangas da camisa de flanela e aberto os dois primeiros botes, expondo os plos do peito. Eram to escuros quanto os da barba por fazer. 
- No... E que Mark gostaria que voc fosse at seus aposentos dizer-lhe boa-noite. Sei que  uma imposio, mas...
- De forma alguma dizer boa-noite a um garoto  uma imposio. Mas voc no deveria ficar subindo e descendo esses degraus, no ?
- Com moderao, exerccios so bons para uma grvida.
O corao de Annebelle disparou ao ver aquele lindo sorriso. Afastando-se, seguiu para cima.
Havia trs dormitrios no segundo andar: a sute dela, o quarto de Mark e um pequeno aposento que seria do beb.
Pouco tempo atrs, Annebelle pintara as paredes do dormitrio do filho, que colara um pster de seu dolo de beisebol e algumas fotografias de cavalos. Todas as noites, antes de dormir, Mark juntava seus brinquedos, mas dessa vez o cesto ainda no estava fechado.
Raymond a acompanhou para dentro e ficou parado ao lado da cama, igual quela em que ele iria dormir.
- Sua me me disse que voc queria me dizer boa-noite, Mark.
- Sim, Raymond. Voc sabe contar histrias?
- Mark... - advertiu Annebelle. - Eu j li uma para voc.
- Talvez outro dia - ofereceu-se Raymond.
- Voc j rezou, filho?
- J, mame.
- Ento, at amanh. Durma bem. - E Annebelle beijou-o.
- Durma com os anjos, parceiro. - Despedindo-se, Raymond afagou-lhe os cabelos.
Fazia tempos que Annebelle no via um sorriso to bonito nos lbios do filho.
Quando alcanaram a escada, Annebelle sentiu outra pontada nas costas. Tentou escond-la, sem sucesso.
- O que foi?
- Nada, Raymond.
- Tem certeza?
- Acho que exagerei um pouco, hoje. Nada que uma noite de sono no resolva.
- Espero que se esforce menos amanh.
- Veremos. Boa noite.
- Boa noite.
Annebelle caminhou at a sute, com a lembrana da voz sensual de Raymond a persegui-la.
Vestiu a camisola e imaginou como seria bom receber uma massagem, e depois a figura de Raymond, com suas mos grandes segurando um frasco de hidratante, assaltou-lhe a mente, sem aviso.
Porm, antes que sua imaginao fosse mais longe, Annebelle enfiou-se sob as cobertas.
Tinha acabado de apagar a luz quando veio uma fisgada muito forte. Respirando fundo, levantou-se e ficou andando de um lado para o outro. "S pode ser cibra, nada mais", pensou. No dia seguinte, no exageraria.
Mas andar no adiantou e, depois de alguns momentos, sentiu a pior das dores na base da espinha e caiu de joelhos. No conseguia se levantar sozinha, e sabia que Raymond no a escutaria se tentasse chamar. Pegou o livro no criado-mudo e jogou-o com toda a fora no cho.


CAPTULO II

Deitado em sua cama, sem conseguir dormir, Raymond fazia os planos para o dia seguinte. Pensava em ir ao tribunal de Billings quando escutou um barulho no teto.
Desde que dissera boa-noite para Annebelle, no conseguia esquecer que ela estava no dormitrio bem em cima do seu.
Ser que tinha derrubado alguma coisa?
Ento, ouviu rudos seguidos. Era estranho, metdico... trs golpes, depois mais trs. No precisou esperar mais para perceber que ela estava tentando mandar-lhe uma mensagem.
Levantou-se e seguiu depressa pelo corredor. Quando entrou na sute de Annebelle, seu corao quase saiu pela boca, tamanho seu susto.
Ela estava no cho, e parecia muito assustada.
- O beb vai nascer - disse, ofegante. - No foi assim da outra vez.
Raymond no sabia muito sobre partos e nascimentos de nens, mas podia ver que Annebelle estava sofrendo.
- Deixe-me lev-la para a cama. - Ele inclinou-se.
- Preciso ir para o hospital.
- As dores comearam agora?
- Acho que no, mas no percebi nada. Com Mark, as contraes vinham de hora em hora, depois quinze minutos, e duraram cerca de sete horas. Agora, comeou tudo de uma vez... - Annebelle engoliu em seco, e Raymond notou que era mais uma contrao.
- Annebelle, o que posso fazer?
Ela estendeu a mo para a frente, enquanto respirava depressa, pedindo que Raymond esperasse. Quando a dor passou, enxugou a testa com a mo.
- Pode me levar para o hospital, Raymond? Sei que  uma imposio terrvel, mas...
- Ora, Annebelle! No se trata de imposio,  um momento de crise!
-  apenas um parto. - Esboou um sorrisinho.
- Para mim, parece uma crise.
- Temos de acordar Mark. Tentarei descer.
- Nem pense nisso! Vou lev-la para baixo, depois venho pegar Mark.
-  apenas um nascimento... - As palavras sumiram diante de mais uma contrao.
- Que j est para acontecer. No existe ambulncia nesta cidade?
- Estamos em Montana, Raymond. Se sairmos agora, quando a ambulncia chegar aqui, j estaremos na metade do caminho para Billings.
Apesar de no ver pelo mesmo prisma, Raymond no discutiria. Antes que Annebelle pudesse objetar, pegou-a no colo.
- Raymond!
-  mais rpido, Annebelle. A ltima coisa que precisa acontecer  voc cair da escada.
- E se ns dois cairmos?
- Voc  a mulher mais teimosa que j conheci em toda minha vida! - Meneou a cabea.
- Mas faz s um dia que voc me conhece.
- E acho que isso significa alguma coisa, no? - Raymond foi at a sala e acomodou-a no sof. - Volto logo.
Raymond correu at o quarto de Mark, acordou o garoto e contou-lhe o que estava acontecendo.
- Mame est bem?
- Sim, tudo dar certo, mas precisamos lev-la depressa ao hospital. Acha que consegue se vestir sozinho enquanto fico cuidando dela?
Mark afirmou que sim.
Deixando o menino sozinho, Raymond desceu as escadas para cuidar de Annebelle. Mas, lgico, ela no estava mais no sof. Pelo visto daria mais trabalho do que Mark. Encontrou-a na cozinha, com o sobretudo, tentando calar as botas.
Quanta teimosia! Raymond foi at ela e tirou-lhe o calado da mo.
- Est apertada. - Annebelle parecia envergonhada.
- Voc est grvida, mocinha. Imagino que tudo esteja apertado.
A risada dela foi to excitante quanto todos seus gestos. Era a primeira vez que Raymond a escutava. E adorara! Esperava poder v-la rir daquele jeito mais vezes.
Mark apareceu logo em seguida, interrompendo seus devaneios.
Annebelle se ergueu e apanhou um chaveiro na janela.
- H uma van parada ao lado do celeiro. No  muito nova, mas anda bem. E o tanque est cheio de gasolina.
A fazenda e Annebelle Lawrence tinham preenchido o mundo de Raymond por um dia, tanto que ele at se esquecera de que estava sem combustvel.
- No se mexa - ordenou Raymond, ao ver que ela pretendia ir caminhando at o veculo.
Apesar de todos os protestos, ele a levou no colo at a van e colocou-a no assento. Depois, acomodou Mark no banco de trs.
Tentou agir depressa, sem entrar em pnico, para no assustar nenhum dos dois. Entretanto, conhecia os perigos daquela viagem ao hospital. Qualquer coisa podia acontecer quando um beb estava para nascer. S queria que Annebelle estivesse a salvo sob os cuidados de mdicos competentes quando chegasse a hora.

Vinte minutos depois, j na estrada, Annebelle ofegou, mas dessa vez foi um som diferente.
- O que houve?
- A bolsa de gua se rompeu, e a presso...
Raymond pisou mais forte no acelerador. Cinco minutos se passaram, e ela levou a cabea aos joelhos.
- Annebelle?
- Acho que vou ter meu filho, Raymond.
- Agora?! - perguntou ele, sem saber se tinha entendido direito.
- Sim.
Raymond avistara algumas luzes adiantes.
- Consegue agentar s mais um pouco?
- Eu posso, mas no sei o beb...
Era uma noite fria, os termmetros marcavam dez graus, mas Raymond suava mais do que se estivesse cortando lenha debaixo de um sol escaldante.
- Mame vai ficar boa? - perguntou Mark com a voz trmula.
- Claro que sim. Ns vamos ajud-la.
A luminosidade que Raymond vira antes no estava to perto assim, e tambm no ficava na estrada.
- Raymond, pare o carro - pediu Annebelle, agarrando-lhe o brao.
Ele tinha de manter a calma. Jurou a si mesmo que faria o que tivesse de ser feito. Cuidaria de Annebelle Lawrence a qualquer custo. Acendeu o pisca-pisca e parou no acostamento.
- Mark, precisarei de seu auxlio.
- O que posso fazer?
Olhando nos olhos do menino, Raymond agradeceu por a me t-lo ensinado a escutar os outros.
- Voc vai ficar sentado aqui no banco do motorista apertando a buzina. Trs vezes... espere um pouco... depois trs vezes de novo. Faa assim e no pare de jeito nenhum, entendeu?
- Sim.
Saltando do veculo, Raymond tirou o chapu e a capa. Em seguida, ajudou Mark a sentar-se na frente.
- Pode comear, garoto.
O menino apertou a buzina uma vez, depois repetiu com mais confiana.
Raymond foi, ento, cuidar de Annebelle, que respirava rpido e com uma certa dificuldade. Teria de baixar o banco de trs e coloc-la no bagageiro da van, mas, a julgar pela situao, aquela no seria uma tarefa fcil. Agiu o mais depressa que pde.
- H algumas mantas para o beb. - avisou ela, quando Raymond colocou a casaco para apoiar-lhe a cabea.
Raymond pegou-lhe a mo e apertou-a por alguns segundos.
- Tudo vai ficar bem, Annebelle. No se preocupe.
Encontrou dois cobertores, um mais leve que o outro. Achou tambm uma p, uma garrafa de gua, uma lanterna e um saco com lenha.
Pelo visto Annebelle se preparara para o caso de a neve apegar de surpresa. Raymond sorriu, impressionado com a independncia dela.
Mark continuou a buzinar, e Raymond cobriu Annebelle com a manta de l.
- Como voc est?
- Tenho de fazer fora, Raymond. No sei se deveria, mas no agento mais.
- Pode parar um minuto, Mark. - Depois olhou para ela, sem graa. - Vou ter de olhar.
A luz da van iluminou-lhe o rosto, e Raymond viu a expresso serena de Annebelle.
- Eu sei, Raymond. Faa o que for necessrio.
A primeira coisa que ele fez foi descal-la para tentar deix-la confortvel. A idia de olh-la e toc-la o envergonhava tanto quanto a ela mesma.
Mas, quando Raymond foi verificar se tudo estava bem e viu a cabea do beb, soube que no demoraria muito para aquela criana vir ao mundo.
- Raymond, pegue isto. - Annebelle estendeu-lhe a mo. - Voc vai precisar para cortar o cordo umbilical.
Sob a fraca iluminao, ele viu que era uma fita de cetim, na certa da camisola de Annebelle.
- Mark, pode continuar a buzinar - pediu, tentando no entrar em pnico.
As contraes eram cada vez mais constantes e fortes, porm, de repente o beb parecia no querer nascer. Havia anos que Raymond no rezava, mas pediu ajuda a Deus.
- Um carro est vindo! - Mark informou.
As luzes vinham na direo deles, mas Raymond no queria deixar Annebelle sozinha. Por outro lado, precisava de ajuda.
Assim, quando desceu da van, o automvel parou, e um senhor de barba baixou o vidro.
- O que aconteceu?
- Ela est tendo um beb. Por favor, encontre um telefone e chame uma ambulncia.
- Tenho um celular aqui.
Raymond agradeceu e voltou para o lado de Annebelle, imaginando o que seria melhor fazer.
- Annebelle, vou levant-la um pouco. Acho que ser mais fcil e, quando a prxima contrao vier, faa fora. Use todo o vigor que puder, est bem?
Subindo no bagageiro, Raymond abraou-a a fim de auxili-la a apoiar-se contra a porta. Mesmo em tais circunstncias, tinha plena conscincia de tudo sobre Annebelle, do cheiro de seu xampu  maciez de sua pele, da determinao em seus olhos castanhos. Sem conseguir se conter, afagou-lhe o rosto.
- Ns vamos conseguir, Annebelle.
Ela ficou imvel por alguns instantes, e lgrimas se formaram em seus olhos.
- Estou pronta.
Raymond torceu para que estivesse mesmo.
Voltando para perto dos ps dela, Raymond esperou pela prxima contrao, que logo veio. No foi preciso encoraj-la, pois Annebelle fazia sua parte usando toda a fora. De repente, Raymond estava com a cabea do beb nas mos.
- De novo, Annebelle, vamos!
Pareceu parecer uma eternidade at a contrao seguinte, mas, quando veio, Annebelle lutou com coragem at dar  luz seu beb, uma linda menina.
Ao olhar para a pequena criatura em suas mos, Raymond sentiu um n na garganta. Jamais passara por uma experincia como aquela. Era um verdadeiro milagre!
Ento, agiu depressa, certificando-se de que a garotinha respirava, cortando o cordo umbilical e enrolando-a na manta.
- Qual ser o nome dela? - Raymond perguntou ao passar o beb para os braos da me.
O pranto escorria sem parar pelo rosto de Annebelle.
- Amanda. Bem-vinda, Amanda.
Ainda perdidos na maravilha daquele momento, eles escutaram a sirene, e logo Raymond viu as luzes da ambulncia. Saiu do caminho e, alguns minutos depois, segurava o ombro de Mark, enquanto os mdicos cuidavam de Annebelle e de Amanda.

Ao seguir a ambulncia at o hospital, Raymond ia torcendo para que tivesse feito tudo certo.
O pequeno Mark acabou adormecendo na sala de espera da maternidade, deitado no ombro de Raymond. Ele olhou para o garoto e sentiu um pouco da responsabilidade que Annebelle deveria experimentar todos os dias.
- O senhor pode ver sua esposa agora - informou a enfermeira.
- Ns no... - Parou de falar, entretanto, pois temeu que no o deixassem v-Ia se soubessem que no eram casados. - No gostaria de deixar o menino sozinho.
- Fique sossegado, eu cuido dele. Por favor, no demore, porque ela precisa de uma boa noite de sono depois de tudo por que passou.
- Qual  o nmero do quarto?
- Vinte e dois.
Havia duas camas, mas uma estava vazia. Ao lado da cama de Annebelle, Amanda fora acomodada em seu bero.
Quando viu Amanda de olhos fechados, Raymond achou que j adormecera.
- Que loucura, no? - Annebelle surpreendeu-o abrindo os olhos.  
- No pretendo passar por isso de novo - brincou Raymond, sorrindo. - Pelo menos no to rpido.
- Nem eu. 
Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do leito.
- Est mesmo bem, Annebelle? 
- Estou. E Amanda tambm. Mas, Raymond...
- Fale, Annebelle. 
- Eu no deveria ter vindo para c.  um hospital caro e...
Durante anos Raymond trabalhara, gastando apenas o necessrio. Portanto, suas economias eram muito boas. Talvez, se o conhecesse melhor, Annebelle aceitasse sua ajuda. Nada neste mundo o impediria de cuidar dela naquele momento.
- No se preocupe com isso agora. Voc e o beb precisam de cuidados especiais. Foi a melhor deciso.
- Irei para casa amanh.
- Tem certeza?
- O mdico disse que, se eu no me esforasse demais, poderia ir.
- A que horas quer que eu esteja aqui?
- Quer mesmo se envolver ainda mais nessa histria, Raymond?
- J estou envolvido. A que horas?
- Por volta das onze estar timo.
- Sem problemas. No tenho nenhum compromisso - brincou. Depois, olhou para o beb e sorriu. - Ela  linda, Annebelle.
- Tambm acho. Obrigada, Raymond.
De repente, ele desejou poder ficar ali a noite toda, segurando-lhe a mo. Quis poder abra-la, mas seria rematada loucura.
- Voltarei amanh cedo, Annebelle. Vou buscar Mark para ele se despedir. No quero que fique preocupado com voc ou com Amanda.
-  uma boa idia. - Sorriu, agradecida.
Ao sair do quarto, Raymond respirou fundo. Fora uma noite difcil, e estava mais do que envolvido. De alguma forma, acabara se deixando levar. Deveria ter sido mais cauteloso.
Nada durava para sempre, e ele no sabia se deveria durar. Nunca tivera algo estvel. Fizera alguns amigos no orfanato, mas eles sempre acabavam indo embora. E a equipe estava sempre mudando. Quando chegou sua vez de partir, nada mais natural do que ter aprendido que no se ficava muito tempo em um mesmo lugar.
Alm disso, havia seu irmo para encontrar.
Entretanto, quando foi pegar Mark, entendeu que, independente do que fosse acontecer dali para a frente, no se esqueceria daquela noite.
Nunca.

Como Raymond suspeitava, o garoto adormeceu no caminho de casa. Quando chegaram, pegou-o no colo e o levou para o quarto. Ajudou-o a vestir o pijama e em seguida o colocou na cama.
- Pode ficar aqui em cima comigo, Raymond?
- Acho que voc acordar com meus roncos, Mark.
- Por favor...
No havia como recusar.
- Vamos fazer um trato, Mark. Por que no fico aqui at voc dormir? Depois, me deitarei no quarto de sua me.
Mark sorriu, concordando, ento abraou o travesseiro. Em poucos instantes, j dormia profundamente.
Raymond se levantou e saiu do aposento, deixando a porta aberta. Parou diante da sute de Annebelle.
Era uma pssima idia ficar ali. Havia uma grande cama no centro, com lenis brancos desarrumados. A colcha tambm era branca, simples, porm delicada.
Raymond se aproximou, encantado com o aroma de rosas. O mesmo cheiro que envolvia Annebelle. De certo era a loo que estava no criado-mudo.
Dormir no leito dela parecia invaso de privacidade, mas no queria desapontar Mark. Desse modo, ajeitou os lenis e a colcha e se deitou em cima.
Notou algumas fotografias do menino em cima da cmoda e tambm uma de um homem mais velho, na certa o pai de Annebelle. Ao lado, uma foto menor do mesmo homem de brao dado com uma bela jovem. O pai e a me. Todavia, no avistou nenhum retrato do falecido marido de Annebelle, o que o fez imaginar por qu.
Avistou um penhoar de seda azul-claro pendurado em um antigo cabide, que parecia confortvel e macio, e logo Raymond a imaginou usando-o.
Annebelle era uma mulher contraditria; dcil e delicada, porm forte e teimosa. Ento, lhe ocorreu mais uma vez a criancinha que trouxera ao mundo.
Apagando a luz, fechou os olhos, sentindo que tinha entrado para sempre na vida de Annebelle Lawrence.

Na manh seguinte, Raymond resolveu no acordar Mark. O garoto perderia a aula, mas esperar a me e a irm chegarem do hospital era um acontecimento muito importante.
Depois de tomar um banho, enrolou-se em uma toalha e desceu para trocar de roupa. No entanto, no podia se esquecer de arrumar o quarto antes que ela chegasse.
Depois de cuidar dos animais, fez ovos mexidos e torrou algumas fatias de po. Tinha acabado de pr a mesa quando Mark apareceu.
- Voc ficou l em cima a noite toda - disse ele, feliz da vida. - Acordei para beber gua e aproveitei para ver se estava no quarto de mame.
- Eu lhe falei que ficaria - respondeu Raymond, olhando o garoto com certa curiosidade.
- Meu pai costumava falar que faria as coisas, mas depois no fazia.
- Que tipo de coisas?
- Jogar bola, pescar, andar de bicicleta...
Raymond colocou a cadeira perto de Mark.
- Talvez ele fosse um homem muito ocupado. Cuidar de uma fazenda no  uma tarefa fcil.
- Mas mame nunca est ocupada. Ela sempre tem tempo para brincar comigo.
Era evidente que Annebelle cumpria tudo o que prometia ao garoto.
- Voc deve sentir muito a falta de seu pai, no?
- Acho que sim - respondeu ele, depois de pensar por um momento.
Raymond cometeu o erro de achar que Mark responderia a um comentrio sobre o tema em questo.
- E creio que sua me tambm sente falta dele.
O pequeno deu de ombros, pegou a torrada e deu uma bela mordida.
" isso o que acontece quando se tenta tirar informao de uma criana."
Assim que terminaram de comer, Raymond lavou a loua, arrumou um pouco a cozinha e subiu para o quarto de Annebelle.
Na vspera, toda envergonhada, ela lhe pedira para levar uma saia jeans e uma camisa branca que estavam pendurados no armrio, alm de outros itens de uso pessoal. Raymond lhe garantira que no haveria o menor problema, mas, quando abriu o armrio, deparou com um lindo vestido branco com detalhes florais. Nunca se envolvera tanto com uma mulher aponto de tal intimidade. Pegou tudo bem depressa, desceu as escadas e chamou Mark para ir para o carro.

Annebelle abriu um lindo sorriso quando os viu entrar pela porta do quarto no hospital. Tinha a aparncia descansada e alegre. E estava linda.
Porm, Raymond sabia que seria um erro elogi-la. Pelo menos por enquanto.
- Esqueci-me de pedir as roupas do beb, Raymond. Amanda ter de ir para casa com a manta do hospital.
- Acho que ela no se importar - brincou Raymond.
- Venha dar um beijo na mame, Mark.
O garoto a obedeceu de imediato.
- Vou me trocar para podermos ir, Raymond. Os papis j esto todos assinados.
Ele saiu com Mark para que Annebelle se arrumasse e, depois de dez minutos, uma enfermeira os acompanhava para fora do hospital.
O olhar que Raymond recebeu de Annebelle, cheio de brilho e agradecimento, ficaria para sempre gravado em sua memria.
- Ainda bem que tenho as roupas de Mark, pois ainda no estava preparada para a chegada de Amanda.
- Vou ter de vir at a cidade para abastecer meu carro, Annebelle. Se quiser, posso comprar o que precisar.
De repente a alegria dela desapareceu. 
- J fez muito por mim, Raymond. Ns no somos sua responsabilidade. 
- Talvez no, mas acha mesmo que eu a deixaria ter o beb sozinha dentro de um carro?
Annebelle no respondeu, e o resto da viagem transcorreu em silncio. 

Em casa, Annebelle colocou a filha no sof e tirou seu sobretudo. 
- Que tal descansar um pouco? - Raymond sugeriu. - Consegue subir as escadas?
- Creio que sim. Irei bem devagar.
- Irei com voc, para ajud-la.
- Tudo bem.
Os olhos dela ficaram cheios de lgrimas. Raymond estava sendo muito amvel e, alm disso, com toda a franqueza, no saberia o que fazer sem sua ajuda. O pensamento a assustou da mesma forma que a proximidade dele.
- No precisava ter arrumado a cama - ela disse ao entrarem em sua sute. 
- Mark me pediu para ficar aqui em cima, na noite passada. Dormi sobre a colcha. 
- Imaginei que ele fosse fazer isso. Desse jeito, nunca vou parar de agradecer-lhe.
- Ora, Annebelle, no estou fazendo nada demais... Quer mais alguma coisa?
- O quarto de Amanda ser o menor, aquele que uso para costurar. J tirei tudo, menos a mquina, e tambm no tive tempo de pegar o bero no sto. Voc me faria mais esse favor?
- Com o maior prazer. Quer que eu o traga para c? Posso fazer alguns arranjos para acomodar melhor o beb.
- Adoraria pintar as paredes de rosa, mas... - Ela no terminou. - Pode colocar o bero aqui, por enquanto. Para chegar ao sto, h uma escada nesse quartinho.
Annebelle acomodou Amanda no meio do colcho. Seu filho acompanhou Raymond, com a desculpa de ajud-lo, e ela ficou olhando para a criaturinha que trouxera ao mundo.
Acariciando os cabelos castanhos, lembrou-se da expresso no rosto daquele estranho, que fizera seu parto.
Raymond Coleburn...
Annebelle detestava depender dos outros daquela maneira, mas o mdico lhe dissera para descansar durante dois dias. O problema era que Raymond j no era mais to desconhecido, e isso estava acontecendo depressa demais.
- J limpei o bero - avisou Raymond, interrompendo os devaneios dela. - E Mark achou uma caixa cheia de brinquedos. Disse que vai tentar separar alguns para Amanda.
O tom divertido dele indicava que no tentara proibir o menino.
- Creio que terei de ensin-lo a ser um bom irmo.
- Duvido que precisar de muito esforo.
Raymond montou o bero e colocou o colcho. Quando Annebelle se ergueu para pegar os lenis que tinha lavado, ele a impediu.
- Como est se sentindo? E no venha me dizer que est bem.
O aroma Annebelle que sentiu exalar da pele de Raymond fez com que o imaginasse dormindo em seu leito.
- Mas eu estou bem, sim. Tenho uma linda filhinha e muito a descobrir a respeito dessa criana que conheo h apenas um dia.
- Voc  uma mulher muito especial, Annebelle Lawrence. - Raymond a encarou.
Havia tempos que Annebelle no se sentia interessante, ou bonita, ou mesmo atraente para um homem. E agora estava diante de Raymond Coleburn, toda envergonhada por ter recebido um elogio. O que a fascinava tanto nele?
No instante em que viu sua mo se levantando, Annebelle soube que Raymond a tocaria. E tambm que deveria tentar impedi-lo.


CAPTULO III

Mas Annebelle no conseguiu dar um s passo para trs. No com aqueles olhos azuis a fit-la. No com seu corao disparado, muito menos com a mo quente tocando-lhe o rosto.
Parecia que Raymond tinha se aproximado. Ou fora ela?
Annebelle fechou os olhos como se pudesse bloquear todos os sentimentos que afloravam. Entretanto, quando sentiu os lbios molhados contra os seus, mais uma provocao do que um beijo, Annebelle no conseguiu pensar em mais nada.
Raymond lhe proporcionava sensaes desconhecidas. Com Pete, no tivera grandes satisfaes. Depois do casamento, sua nica preocupao tinha sido com o prprio bem-estar. O fugaz toque de lbios continha mais prazer e gentileza do que todos seus momentos ao lado do falecido marido.
Mas como? Raymond era um completo estranho. Conheciam-se havia apenas...
O choro de Amanda interrompeu a quietude.
Raymond se afastou e, quando Annebelle ergueu as plpebras, viu vrias indagaes no olhar dele, decerto refletindo as suas.
O que acontecera? Acabara de ter um beb! Uma criana que precisava dela. No podia estar to perto de um homem que no parava em lugar algum, quanto menos beij-lo.
Confusa, com as faces quentes, Annebelle foi at a cama pegar a filha. Esse incidente jamais poderia se repetir. Com certeza eram seus hormnios em alvoroo. Nada alm disso.
E se Raymond fosse o culpado?
Annebelle lhe diria que tinha dois filhos para criar e que no havia espao em sua vida para um andarilho.
Aninhando a pequena Amanda no peito, encarou Raymond.
- Preciso amament-la.
- Voc tem mamadeiras e tudo de que precisa?
- Vou dar-lhe o seio, Raymond.
A declarao continha bem mais implicaes do que o simples ato de amamentar.
Annebelle foi at a cadeira de balano, quase tremendo com a idia de ser observada por ele.
- Voc quer alguma coisa, Annebelle?
"Espao para respirar", ela pensou, mas apenas meneou a cabea indicando que no.
- Sendo assim, irei ver se Mark terminou de separar os brinquedos. Depois, vamos preparar algo para o almoo.
- Raymond, no precisa...
- ...ajud-la? Voc precisa de ajuda, sim, Annebelle. Ento,  bom se acostumar com isso. Pelo menos, agora no comeo.
- Mas tem seus assuntos para resolver em Billings, no ?
- No  nada que no possa esperar um pouco mais.
Amanda voltou a chorar, interrompendo-os. Raymond compreendeu que a pequena no agentava mais esperar, e retirou-se.
Annebelle desabotoou os primeiros botes da blusa, expondo o seio cheio de leite. Ao ver sua filhinha a sug-lo, foi tomada por uma gama de emoes que misturavam alegria, amor e outras que ainda no conseguia entender direito.
Ao mesmo tempo, escutou as botas de Raymond batendo contra os degraus da escadaria. Foi a que recordou o beijo, mas afastou a imagem da mente no mesmo instante.

Raymond se dava melhor na cozinha do que a mdia dos homens. Alm de saber mexer no microondas, no tinha nenhum problema com o fogo. Deixou Mark limpando os brinquedos que trouxera do sto e colocou a sopa para esquentar. Tambm cortou algumas fatias do po que Annebelle fizera na vspera. S de imagin-la amamentando o beb...
No deveria estar tendo esse tipo de pensamento. Annebelle era me de duas crianas. E tambm ele no ficaria muito tempo naquele rancho, motivo suficiente para no se apegar a Annebelle ou a Mark. Havia anos que sabia que ligaes desse tipo sempre resultavam em tristeza e decepo.
- Por que no vai at o quarto de sua me e pergunta se ela est pronta para almoar, Mark? Diga-lhe que levarei uma bandeja para cima.
De forma alguma Raymond queria voltar quela sute e correr o risco de flagr-la amamentando Amanda. Afinal, j existia tenso suficiente entre ambos.
Talvez fosse coisa de sua cabea e Annebelle no estivesse nem notando. Entretanto, ela no se afastara...
- Podemos ir at l juntos e comer com ela, Raymond?
Sem saber como responder, Raymond optou pelo mais simples:
- Ter um beb no  nada fcil, amigo, e sua me est muito cansada. Acho que seria bem melhor se a deixssemos descansar hoje. E se Annebelle estiver melhor, poderemos jantar juntos.
- Est bem. - Mark ficou aborrecido, mas logo seu nimo voltou. - Posso sair com voc hoje  tarde?
- Se sua me deixar.
Assim que o menino correu para cima, Raymond foi mexer a sopa e deixou a colher de pau cair no cho. 
- Droga! - Era preciso prestar mais ateno ao que fazia. 
Melhor que isso, devia tomar cuidado com cada passo dado.

Mark passava manteiga em sua torrada, e Raymond subiu levando a bandeja com um prato de sopa, duas fatias de po e um copo de leite. Parou  soleira ao escutar Annebelle cantando uma cano de ninar para Amanda. Sentiu um aperto no peito e respirou fundo, batendo. 
- Pode entrar.
O sol comeara a se pr e brilhava pela janela da sute, realando os cabelos claros de Annebelle. Estava linda, com a filha no colo, e mais uma vez Raymond parou para pensar em como teria sido o relacionamento dela com o marido e se ainda o amava. 
- Est com fome, Annebelle? 
- Na verdade, no, mas sei que preciso me alimentar para ficar saudvel e poder amamentar Amanda. Temos de conversar sobre o jantar. H algumas coisas que no posso comer por... bem, por estar amamentando. 
- Que tal bolo de carne? Vi um pacote de carne moda no freezer. 
- timo, desde que no exagere no tempero. - Ela esboou um sorriso tmido. - Acho que a maioria dos homens no sabe fazer bolo de carne.
- No fao parte da maioria, Annebelle. - Colocou a bandeja sobre a cmoda. - Tambm sei fazer pur de batata.
- Ento ser amigo de Mark para o resto da vida. Esse  o prato predileto dele.
Amigo para o resto da vida... Raymond quase no compreendia o conceito.
- Mark quer saber se voc permite que ele me acompanhe,  tarde. 
- Para mim, no h problema.
- Certo. Assim poderei mant-lo ocupado enquanto voc repousa. Mas... E se voc precisar de alguma coisa?
- Fique sossegado, Raymond. Depois de trocar Amanda, vou tomar um banho, me trocar e tentar dormir um pouco.
- Caso precise de mim, pendure uma fronha na janela. Vou verificar de vez em quando.
Annebelle baixou os olhos e acariciou o rosto da filha.
- Est me ajudando muito, Raymond. Nunca poderei agradecer-lhe.
- Generosidade no se paga, Annebelle. Ela caminha lado a lado com a verdade e a honestidade.
Calada, ela recebeu um olhar de Raymond que a incomodou.
- Se precisar de algo, grite. Se no respondermos, pendure a fronha na janela. - E Raymond saiu, fechando a porta atrs de si.

A tarde passou depressa, com Mark ajudando Raymond com as tarefas da fazenda. Em momento algum vira uma fronha na janela.
Voltando para casa, ensinou o pequeno a preparar bolo de carne. Mark aprendia rpido, e divertiu-se misturando amassa. Raymond deixou-o por alguns instantes para ver se Annebelle estava bem.
Encontrando a porta entreaberta, empurrou-a com cuidado. Deitada na cama, de lado, com as mos debaixo do rosto, Annebelle estava linda e serena.
Amanda tambm dormia, junto dela, enrolada em uma manta cor-de-rosa. Raymond entrou e pegou a colcha dobrada ao p do leito para cobri-las.
Ento, Annebelle ergueu as plpebras.
- No pretendia acord-la. Achei que pudessem estar com frio.
- Obrigada.
- Volte a dormir.
Sonolenta, ela fechou os olhos, e sua respirao tornou-se ritmada.
Raymond ficou olhando para as duas, de uma para outra, e foi tomado por uma sensao jamais vivida antes. S que no sabia explicar o que era.

Na hora do jantar, Annebelle desceu com Amanda no colo, como se no pudesse se separar da filha.
- Tenho mais um favor para lhe pedir - ela falou, antes de sentar-se  mesa.
Raymond sabia que era difcil para Annebelle pedir ajuda. Assim, no fez nenhum tipo de comentrio, apenas esperou que continuasse.
- H um carrinho de beb no sto. Ser que poderia peg-lo para eu colocar Amanda?
- Claro. Eu o vi antes. Est um pouco velho, no?
- Era meu. Foi meu pai quem fez.
As diferenas entre ambos o sensibilizavam. Annebelle sabia o que era uma famlia e ser querida por pessoas prximas. Raymond nunca passara por isso.
Annebelle o elogiou pela refeio, mais de uma vez. Comeu tudo, e mostrava-se descansada. Logo recuperaria suas foras, ele notou. Entretanto, no sabia se aprovava muito a idia, pois gostava de ter algum que dependesse de seus prstimos.
Depois da refeio, Annebelle deixou o pequeno Mark segurar a irm e contar todos seus dedinhos. Raymond parecia encantado por Amanda, temendo toc-la, com medo de aproximar muito. Mais tarde, convidou Mark para jogar cartas.
Relaxada, Annebelle ficou sentada no sof, tricotando um casaco para a filha. Sempre levantava os olhos para os dois, pensativa. O que aquele estranho tinha de to especial? Fazia apenas dois dias que se conheciam, mas Raymond j agia com a naturalidade de um membro da famlia.
- Vou subir para dar de mamar a Amanda - disse ela quando a menina comeou a chorar. - Mark, vista seu pijama. Daqui a pouco dever ir para a cama.

Fazia muito tempo que Raymond ouvia Amanda resmungar, no andar de cima, por isso decidiu ir ver o que estava acontecendo.
Pela porta entreaberta, avistou Annebelle andando de um lado para o outro com o beb no colo, ninando-a e cantando.
- H algo errado?
- Acho que no, Raymond. Os bebs tm momentos de manha. Mark costumava reclamar da meia-noite s duas da manh.
- Creio que o segundo filho  sempre mais fcil, no?
- Sim, e dessa vez no estou to medrosa. Com Mark eu temia fazer algo de errado ou machuc-lo.
Amanda comeara a chorar, e era evidente que Annebelle no queria deix-la s.
- Posso coloc-lo na cama, se voc quiser.
- Diga-lhe para vir at aqui me dizer boa-noite. E no precisa ler uma histria...
- No me importo de ler para ele, Annebelle.
Os olhares deles se encontraram, o dela, repleto de gratido, e Raymond viu-se querendo algo alm de agradecimento. Virou-se e saiu para cuidar de Mark.
Raymond notou as sobrancelhas de Mark franzidas, j deitado.
- Qual  o problema, parceiro? Acha que no sei ler uma histria to bem quanto sua me?
- A mame sempre me coloca na cama.
- As coisas podem mudar um pouco agora - explicou, cauteloso. - Os bebs necessitam de muitos cuidados.
- Por que minha irm est chorando tanto?
Respirando fundo, Raymond quis achar a melhor maneira de justificar o que estava acontecendo.
- Amanda sentiu-se segura, confortvel e alegre na barriga de sua me durante todos esses meses.  um lugar quentinho e gostoso. E agora, veio para este mundo grande, cheio de luzes e de barulho, onde h frio, calor e vrias coisas com as quais no estava acostumada.
- E quanto tempo demora para ela se acostumar? - A expresso de Mark mostrava preocupao.
- No tenho certeza, mas creio que daqui um ou dois meses tudo voltar ao normal.
Mark no fez nenhum comentrio, apenas pegou um livro ao lado e passou-o para Raymond.

Assim que o menino adormeceu, Raymond saiu do aposento e foi at a sute de Annebelle, pois Amanda ainda chorava.
- Pode entrar - disse ela, escutando-o bater.
- Posso ajud-la de alguma forma?
- Acho que no, Raymond, obrigada.
- Bem, qualquer coisa, estarei em meu quarto.
Ao ver Annebelle assentir com um gesto de cabea, ele sentiu-se um intruso, como se ela no o quisesse ali. Talvez no desejasse nenhum homem em seu caminho, mesmo que fosse s para auxili-la.
Saindo para o corredor, Raymond fechou a porta mais uma vez e desceu as escadas.
Passava da meia-noite quando ele se deitou e ficou olhando para o teto, sem conseguir dormir .
Amanda tinha parado de chorar fazia algum tempo. Raymond escutou o barulho da cadeira de balano, e a imagem de Annebelle amamentando-a lhe veio  memria.
Virou-se de lado, esperando o sono chegar, mas as imagens danando em seu mente no o deixariam em paz to cedo.
Concentrando-se em sua viagem para Billings, no dia seguinte, Raymond fez uma lista do que tinha a fazer. Primeiro, iria ao tribunal tentar procurar algo nos registros pblicos, tentar encontrar algumas respostas. Talvez at mesmo seu irmo gmeo...
Um pouco da tenso j deixara seu corpo quando ele escutou o som de gua correndo da torneira da cozinha. Uma colher caiu na pia, o que o fez sentar-se no colcho.
Deveria ficar ali, em seu canto, quieto. Mas saber que Annebelle estava to prxima o fez pegar o jeans que jogara na cadeira. Vestiu-o depressa e colocou uma camisa, sem se importar em aboto-la.
Na cozinha, viu Annebelle despejar leite em uma caneca. Depois, colocou-a no microondas para esquentar.
- Achei que estivesse dormindo - disse ela, surpresa por v-lo. - No tive inteno de acord-lo.
- No tinha adormecido ainda.
Os cabelos de Annebelle caam-lhe no rosto. Ela usava uma camisola branca de flanela e um penhoar azul. Os chinelos tambm eram azuis e confortveis. Tudo nela fazia Raymond querer tom-la nos braos, abra-la e mant-la segura.
- Suponho que Amanda tenha sossegado.
- Parece que sim. - Annebelle esboou um sorrisinho, desviando os olhos da camisa aberta e do peito nu.
Raymond foi at o balco e pegou alguns bolinhos embrulhados em papel alumnio. Annebelle lhe pedira para tir-los do freezer para com-los no jantar, mas haviam sobrado alguns.
- Aceita? - ofereceu ele, abrindo o embrulho.
- Sim. - Annebelle tirou o leite do microondas. - Mas vamos para a sala, pois ser mais fcil escutar, se Amanda chorar. Se voc for para a cidade amanh, gostaria de lhe pedir para comprar uma bab eletrnica.
- Faa uma lista de tudo de que necessita - disse Raymond, acompanhando-a para a sala.
Em vez de sentar-se na poltrona diante de Annebelle, ele acomodou-se no sof, bem perto dela.
- Obrigada, Raymond - agradeceu, pegando o bolinho.
- Foi voc quem os fez, ora...
- Voc sabe do que estou falando. Obrigada por ter ficado aqui me ajudado tanto. Cada vez aparece mais uma coisa... No sei se um dia serei capaz de retribuir.
- J lhe disse que no espero nenhum tipo de retribuio.
Ficaram em silncio e, sem saber o que fazer, Annebelle comeu um pedao do bolinho. Raymond no conseguia parar de observ-la. Annebelle tinha um perfil to lindo, lbios to carnudos...
- Voc afirmou que vai at Billings amanh. Pretende ficar fora o dia todo?
- Ainda no sei.
- Sinto muito, no quis me intrometer. 
- Imagine, voc no est se intrometendo.  que...
- Raymond passou a mo nos cabelos. - No tenho certeza do que vou encontrar.
Eles se encararam. Raymond no conseguia adivinhar o que se passava pela cabea dela.
- Est procurando uma mulher, Raymond?
Ele ficou surpreso, mas ao mesmo tempo sentiu uma grande satisfao. Ser que ela se importava?
- No, Annebelle. Procuro meu irmo.
Teria visto um certo alvio no lindo semblante?
- Voc no sabe onde ele mora?
Raymond podia encerrar o assunto ou podia se abrir. Se no lhe contasse um pouco sobre sua vida, Annebelle tambm no lhe daria informaes, e ele estava cada vez mais curioso de saber sobre o casamento dela com Pete Lawrence.
- No tive uma infncia como a maioria das pessoas. - Raymond deu de ombros. - A maioria das crianas tem pais e um lar. Eu nunca conheci meus pais. Fui criando em um orfanato.
- Ah, Raymond...
- No lamente. As pessoas que cuidavam de ns eram muito amveis, porm, no eram uma famlia de verdade. As crianas iam e vinham. E a equipe tambm.
- Seu irmo tambm foi criado l?
 -Eu no sabia que tinha um at poucos meses atrs. O orfanato em que vivi, em Tucson, fechou. Agora existe um outro tipo de entidade com um sistema completamente diferente. Eu trabalhava em uma fazenda em Idaho quando recebi uma carta deles.
Todos os finais de ano Raymond enviava uma doao, como forma de agradecimento.
- Junto, no envelope, encontrei a certido de bito de minha me e duas certides de nascimento. Uma era minha, a outra, de meu irmo, Hunter. As datas de nascimento so as mesmas, mas h cinco minutos de diferena de horrio.
- Ento voc tem um gmeo!
- Acho que sim. Na mensagem estava escrito que Hunter fora adotado aos oito meses. E uma cpia dela foi enviada a um endereo em Billings. Tentei contatar as autoridades de Tucson para pedir mais informaes, mas ningum sabia de nada. Tudo aconteceu h muito tempo.
- Acha que seu irmo est em Tucson?
- Eu esperava que sim, mas no encontrei nenhum nmero de telefone de Hunter Coleburn. Vou dar uma olhada nos registros pblicos, fazer algumas perguntas, ir ao endereo que tenho. Se no conseguir nada, terei de contratar um detetive.
- Mas  muito caro, Raymond.
- Sei disso, mas tenho algumas economias.
- Eu no estava tentando descobrir...
- No precisa se explicar, Annebelle. Desde que sa de Tucson, com dezoito anos, no tive muitos gastos. Um homem no precisa de muito quando no tem um lar fixo.
- Quer dizer que nunca morou em um lugar por muito tempo?
- No. Sempre corri atrs de empregos. Trabalhei em construes, em ranchos... Posso dizer que viajei bastante. Voc j saiu de Montana?
Annebelle terminou o bolinho e colocou o guardanapo na mesa de centro.
- No. Nunca fui mais longe que Helena. Meu pai me levou uma vez a um rodeio l.
- E seu marido?
- Pete cresceu aqui, como eu. E jamais teve vontade de... bem, de conhecer lugares diferentes.
Algo em seu tom de voz que fazia Raymond querer especular um pouco mais. Mas no queria assust-la. Portanto, era melhor fazer uma pergunta de cada vez, dando-lhe espao para se acostumar  idia de conversar sobre o passado.
Parecendo nervosa, Annebelle bebeu um gole de leite.
- Por quanto tempo pretende ficar aqui?
- No sei, Annebelle. Depende do que vier a descobrir em Billings. E tambm de quanto tempo voc possa precisar de meus servios.
- Contudo, assim no aumentar suas economias.
- J lhe disse que no preciso de muito para viver.
Ela o olhava como se estivesse tentando decifr-lo. Seus olhos castanhos eram serenos, os lbios brilhavam dos goles de leite.
- Voc  uma linda mulher, Annebelle.
- Acho que esteve muito concentrado no trabalho nos ltimos tempos - respondeu ela, sem conseguir evitar o rubor.
Raymond sorriu, e Annebelle tambm, mas seu bom senso no o impediu de levar a mo at os cabelos sedosos. Queria dar-lhe tempo de se afastar, de raciocinar, de se acostumar a ser beijada.
A mente dela funcionava sem parar diante do olhar fixo de Raymond. Tantos sentimentos ecoavam a cada batimento cardaco...
O que ainda fazia sentada ali sabendo o que aconteceria depois? Prometera a si mesma que se manteria longe dele, mas existia algo naquelas ris azuis que a convidavam ao desconhecido. E a fora e gentileza daquele homem a encantavam de uma forma incontrolvel. Um beijo de Raymond Coleburn...
Ele inclinou a cabea, e Annebelle cerrou as plpebras. Seu corpo todo j tremia antes de sentir o calor da respirao dele. Esperava um toque faminto, exigente, como sempre acontecia quando Pete a beijava. Mas estava com Raymond, que j lhe dera vrias provas de sua amabilidade.
Primeiro, sentiu o contato de sua boca mida, depois da barba por fazer. Um aroma msculo e ctrico o envolvia, e Annebelle no acreditava em seu desejo crescente para que o beijo se consumasse.
Entretanto, Raymond a provocava com carcias delicadas, brincando com os lbios, depois com a lngua e, de repente, ela estava sendo beijada como jamais fora antes.
Foi tomada por um grande torpor, uma quentura desconcertante. Aquele era um homem de verdade, que sabia como tratar uma mulher. Um homem que...
Que logo sairia de sua vida, talvez to depressa quanto um relmpago.
Annebelle se afastou de repente, irritada por no ter pesado suas prioridades. Tinha dois filhos para criar e uma fazenda para cuidar, portanto, nenhum tempo para algum que desconhecia o significado da palavra "origens.
Indo para o outro canto do sof, ela respirou fundo e ajeitou o penhoar, tentando se recompor.
- Isso no pode se repetir, Raymond. No sei o que aconteceu comigo.
- Annebelle... - A voz dele era rouca e profunda.
- Acabei de ter um filho. No deveria estar nem pensando em... Eu no posso...
- Acha que quero mais que um beijo?
- Sim... No... No sei. No o conheo, afinal de contas.
Os olhos azuis perderam toda a alegria de antes.
- Voc no me conhece? Depois de tudo o que passamos juntos? Bem, vou lhe dizer uma coisa a meu respeito. Sou um homem de palavra. E lhe prometo que nunca mais a beijarei, a no ser que me pea.
Em seguida, Raymond se levantou, e sua camisa aberta deixou todo seu peito musculoso  mostra. A viso a atordoou tanto quanto a presena de Raymond.
- Boa noite, Annebelle - disse ele, antes que pudesse escutar mais uma de suas respostas adequadas, e virou-se, saindo em direo ao quarto.
Ao pegar a caneca na mesa, ela sentiu o pranto assomar. No queria depender de ningum, muito menos de Raymond Coleburn.
E nem morta pediria um beijo dele!


CAPTULO IV

O prego escapou dos dedos de Raymond ao martelar um pedao de madeira na estrutura da porta. Assim que terminou o servio, olhou para Annebelle, que levava uma assadeira ao forno.
Ela se mantivera distante nos ltimos dias, esquivando-se sempre que possvel, o que comeava a frustr-lo. Da mesma forma que sua ida a Billings. Talvez nunca encontrasse o irmo.
Martelando outro prego, notou que Annebelle o distraa de seu objetivo. No deveria ter se irritado e dito o que dissera naquela noite. E tambm no deveria t-la beijado.
Mas ela parecera gostar do beijo... Gostar no era suficiente, no entanto. Annebelle podia ser reservada e quieta, mas havia uma grande paixo escondida sob aquela mscara de seriedade. E, pelo visto, o fato de ser me e viva fazia com que se anulasse como mulher.
Porm, se Annebelle no queria ser beijada... Raymond a respeitaria.

Perto do horrio em que Mark chegava da escola, Amanda comeou a chorar. Annebelle olhou para o relgio, sem saber o que fazer.
- V amament-la. Eu vou buscar Mark no ponto de nibus - disse Raymond, percebendo seu dilema.
A pequena gritava cada vez mais alto.
- Esperava que ela estivesse dormindo para que eu pudesse ir encontr-lo. - Annebelle suspirou.
- Quem sabe na segunda-feira? No se preocupe. - Raymond fez uma pausa. - Convidarei Mark para dar um passeio a cavalo comigo, amanh cedo.
Depois de terminar seu servio, Raymond pegou o chapu e a capa no cabide, e saiu.
- Voltarei logo.
- Obrigada, Raymond.
Ele j no agentava mais escutar "obrigada". Preferiria um sorriso que tivesse o mesmo significado.

Quando Mark desceu do nibus e viu Raymond, no escondeu o desapontamento.
- Onde est mame? - quis saber, ajeitando a mochila nas costas. - Est dando de mamar para Amanda de novo?
- Pelo visto, sua irm mama bastante, no? - Raymond brincou, tentando amenizar a situao.
Mark o fitou de soslaio.
O garoto estava mais calado desde que a me voltara do hospital. At demais. Todavia, Raymond no sabia como agir, ou se deveria se intrometer.
- Quer andar a cavalo comigo amanh cedo, Mark? Podemos contar o gado.
- Aposto que mame no vai deixar. Ela vai dizer que est muito frio.
- J pedi para ela.
Nem assim o garoto sorriu. Manteve o mesmo olhar triste durante todo o percurso para casa.
- Ela deve estar no quarto - resmungou, ao entrar em casa e no encontrar a me.
Raymond no podia deixar a situao daquele jeito. Teria de conversar com Annebelle antes que o problema aumentasse.
Annebelle desceu as escadas com a filha nos braos. Tentou conversar com Mark sobre seu dia na escola, mas o menino s respondia em monosslabos, e no mostrava vontade de falar.
- Estou pensando em fazer alguns biscoitos amanh, filho. - Ela percebia que havia algo de errado. - Quer me ajudar?
- Raymond falou que vamos cavalgar.
- Eu sei, mas e  tarde?
- Est bem - respondeu ele, um pouco mais animado.
Mesmo assim, Mark no conversou muito durante o jantar.
Annebelle insistiu que no precisava de ajuda, ento Raymond sentou-se na sala com o garoto e o ensinou a dar ns de marinheiro.
Felizmente, na hora de coloc-lo na cama, Amanda estava dormindo, permitindo que Annebelle acompanhasse o filho, como de costume. Entretanto, ainda no tinha lido a histria quando o choro recomeou.
Sentindo-se dividida entre as exigncias dos dois filhos, Annebelle despediu-se de Mark e foi alimentar Amanda.
Uma hora depois, desceu as escadas, imaginando se Raymond j teria ido dormir. Ento, escutou o televisor ligado.
- Os dois esto dormindo?
Annebelle parou  soleira da cozinha.
- Sim. Vim buscar um copo de leite, depois tambm vou me deitar.
- Ns precisamos conversar. - Ele desligou o aparelho.
- Sobre o qu?
Raymond se endireitou na poltrona. A camisa de flanela estava um pouco aberta, ressaltando seus plos pretos. Annebelle cerrou as plpebras e imaginou-se deitada naquele trax, recebendo suas carcias.
- Sobre vrias coisas - Raymond interrompeu-lhe os devaneios. - A comear por aquela noite.
- No h o que falar.
- Lgico que h, Annebelle, pois, cada vez que me aproximo, voc sai de perto como se levasse um choque.
- Ora, Raymond,  sua imaginao...
- No, Annebelle. No tem nada a ver com minha imaginao.
Ela estava muito cansada para discutir aquele assunto. Era como se no dormisse fazia uma semana. Cozinhar, cuidar de Amanda e da casa a estavam deixando exausta.
- Acho que me sinto um pouco... estranha. Nada alm disso. No estou acostumada a ter um homem a minha volta.
- Mas voc tinha um marido, no?
-  diferente, Raymond. Voc, de certa, forma  um estranho.
- Nem tanto assim.
Os dois se lembraram da ocasio do nascimento de Amanda. E tambm do beijo que os abalara com a mesma intensidade.
- Vou para a cama. - Annebelle virou-se para a escadaria.
Mas Raymond pegou-lhe o brao antes que ela pisasse no primeiro degrau. S que Amanda comeou a chorar.
- Raymond, prometo que conversaremos amanh. Pode ser?
- Est bem.

Na manh seguinte, Mark e Raymond saram a cavalo, e Annebelle ficou em casa. Aproveitou o tempo em que Amanda dormia para ajeitar algumas coisas.
Pretendia passar a tarde com o filho, mas, logo depois do almoo, sua vizinha, que ficara a par do nascimento do beb, telefonou-lhe para saber se podia fazer uma visita no dia seguinte, aps o culto na igreja. Marvis O'Neill era uma mulher falante e, quando Annebelle se deu conta, mais meia hora j tinha se passado.
Assim que desligou o telefone, comeou a separar os ingredientes para os biscoitos, porm, logo teve de ir cuidar da filha. Assim, a tarde terminou.
Durante o jantar, Mark quase no abriu a boca.
- Que tal fazermos os biscoitos depois de comermos? - sugeriu Annebelle.
- Raymond vai me ensinar a fazer alguns truques com cartas de baralho.
- Est bem, filho. E amanh  tarde?
- Os vizinhos no vm aqui?
-  mesmo, eu tinha me esquecido... Amanh  noite?
- Tanto faz. - Mark achava que as chances de isso no acontecer eram grandes.
Annebelle sentiu-se culpada e triste, e no sabia como agir. Nem com Mark, nem com Raymond.
- Mark, antes de Amanda nascer, ns j tnhamos conversado a esse respeito. Sei que fico muito tempo cuidando dela, mas lhe prometo que amanh ficaremos juntos.
- No se preocupe, mame. Eu tenho Raymond.
"Raymond?!"
- Querido, no sei quanto tempo Raymond ficar conosco. Ele est apenas de passagem.
A expresso de Mark indicava que o comentrio no o agradara.
- Ele ficar, se eu pedir.
- Raymond tem assuntos para resolver em Billings que no tm nada a ver conosco. Est procurando um irmo que no conhece, e essa busca pode lev-lo para bem longe daqui.
O pequeno no olhou para a me quando puxou o cobertor at o queixo.
- Boa noite, mame.
- Querido, se quiser conversar sobre...
Mark meneou a cabea.
Pelo que conhecia do garoto, Annebelle entendia que de nada adiantava pression-lo. Quando sentisse segurana, falaria daquilo.
- Eu te amo. - Annebelle abraou-o.
Mas o pequeno no respondeu.
Antes de sair do quarto, ela o beijou na testa.
- Boa noite, amorzinho.

Annebelle entrou debaixo do chuveiro para tentar relaxar. Assim que saiu, se ps a amamentar Amanda, sentada na cadeira de balano, cantarolando e pensando em como agir com o filho. Foi quando escutou uma batida na porta.
- Precisamos conversar. - E Raymond entrou sem esperar resposta. - Mark acabou de descer e me perguntou se...
As palavras lhe faltaram assim que Raymond a viu dando o seio para a filha.
Ao encar-lo, Annebelle viu algo to poderoso nos olhos dele que se assustou. Uma mistura de saudade e desejo, e algo completamente desconhecido. Procurou alguma coisa com que se cobrir, mas no achou nada.
Notando seu desconforto, Raymond foi at o bero, pegou uma manta e passou-a para Annebelle.
- Por fim, aconteceu: eu a vi seminua. Annebelle, h dcadas as mulheres amamentam seus filhos em pblico. Por que voc precisa se esconder aqui na sute, para faz-lo?
Ela no compreendeu a raiva e frustrao dele.
- No tem o direito de me dizer como devo cuidar de minha filha, Raymond.
- Voc pode estar cuidando de sua filha, mas no de seu filho. Mark acabou de descer e me perguntou quanto tempo vou ficar aqui. Quando afirmei que no sabia, ele subiu para o quarto, e agora no quer mais falar comigo.
Annebelle sabia que Mark estava magoado. Portanto, dessa vez no poderia esperar que ele falasse. Teria de forar o assunto.
Sentiu os olhos marejados ao se dar conta de tudo o que tinha para fazer. Recuperar-se do parto, cuidar de um recm-nascido, dedicar-se a uma criana enciumada sem saber como, lidar com o desejo evidente de Raymond, lutar contra seus sentimentos cada vez mais fortes em relao quele estranho.
Tentou cont-las, mas as lgrimas escorreram por suas faces, sem controle.
Raymond aproximou-se, abaixando-se ao lado dela.
- Ah, Annebelle, eu no queria que voc se sentisse mal... Depois que terminar de alimentar Amanda, ns conversamos, est bem?
Ela assentiu, percebendo que tinha de enfrentar o que sentia por Raymond, bem como o que incomodava seu filho.
O pranto no cessou nem depois que ele saiu da sute. Enxugou-as, enquanto sua filha mamava, torcendo para que fosse apenas uma desordem hormonal, pois no costumava ser to suscetvel.
Depois de colocar a pequena no bero, lavou o rosto, penteou os cabelos e preparou-se para enfrent-lo.
Passou pelo quarto de Mark e ficou contente ao v-lo dormindo. Deixando a porta entreaberta, desceu as escadas.
- Achei que quisesse - disse Raymond, apontando para a caneca de leite em cima da mesa.
A bondade e sensibilidade dele a emocionaram de novo. Annebelle recomps-se depressa, no entanto, e acomodou-se perto dele... mas no muito.
- Sei que preciso passar mais tempo com Mark, Raymond, mas no imaginei que seria to complicado cuidar de duas crianas pequenas. Fiquei feliz quando soube de minha gravidez, mesmo j sendo viva. S que no achei que Amanda fosse exigir tanto minha dedicao.
Raymond chegou mais perto.
- Sinto muito por ter sido rude, mas voc precisa parar de se esconder com Amanda. Esse  o grande problema. Mark a v dando ateno para o beb e acha que voc no se importa mais com ele.
- Mas meu filho pode entrar no quarto a hora que quiser!
- Annebelle, eu at entendo que voc deixe a porta fechada para me manter longe. Alis, o que achou que aconteceria se eu a visse amamentando Amanda?
-  uma questo de privacidade, Raymond.
- No , Annebelle.  porque eu sou homem, e voc, mulher. Alm disso, ns nos beijamos. Se eu fosse uma garota, nem estaramos discutindo isso. E voc estaria amamentando Amanda em qualquer canto da casa. 
- Se voc fosse uma mulher, eu no...
- Continue - pediu ele, gentil.
No prenderia a respirao cada vez que o visse. No tremeria quando ele se aproximasse. No sentiria um frio no estmago quando seus olhares se encontrassem.
- Bem, Raymond, voc no  mulher e no  membro da famlia.
A frase o incomodou, mas ele procurou manter o controle.
- Pensa em algum dia sair daqui de dentro com Amanda? 
- Claro que sim.
- E o que vai fazer quando tiver de dar-lhe de mamar?
Com Mark, ela sempre procurava faz-lo em um lugar afastado da vista dos outros.
- No  difcil achar um local sem muita gente.
- Talvez no, mas creio que seria bom voc comear a incluir seu filho, caso no queira ter problemas mais srios.
Aquilo era a mais pura verdade. Se Mark comeasse a se afastar da me com aquela idade, o que aconteceria depois?
- Creio que durante o dia eu poderia amament-la aqui embaixo. S no queria me sentir como se voc...
- Como se eu quisesse observ-la?
- Sim.
- Esta  sua casa, Annebelle. So seus filhos. Cumprirei quaisquer regras que voc estabelecer.
- No  to fcil assim. - Desviou o olhar. De certa forma, queria que Raymond a olhasse, o que a deixou aturdida. - Obrigada, vou pensar no que fazer.
- Por que  to difcil aceitar ajuda?
- Porque no quero que os outros faam o que  minha obrigao. Pedir auxlio faz com que me sinta fraca. - Annebelle se sentia um pouco frustrada por ter de admiti-lo.
-  a mulher mais forte que j conheci, Annebelle, mas tudo tem limite. E voc e Mark j chegaram l.
Raymond tinha razo.
- O que voc acha que devo fazer?
- Deixe-me ajud-la. Posso cozinhar de vez em quando. Tambm podemos fazer sopa enlatada.
- Mas  muito mais caro...
- Comprarei um estoque de sopa em lata para as prximas duas semanas.
- Isso  tudo o que no quero.
Annebelle tivera de obrig-lo a aceitar o dinheiro da bab eletrnica.
Os dois ficaram se encarando sem piscar por vrios minutos. Foi Raymond quem quebrou o silncio:
- A mulher mais teimosa que conheci...
Sem conseguir resistir, Annebelle sorriu.
Algo no olhar dele mudou. Suas ris se tornaram mais azuis... Hipnotizantes. Quando Annebelle o viu inclinar-se, no soube o que fazer, mas no se moveu.
Raymond tocou-lhe o rosto com delicadeza.
Ela olhou para cima, confusa com a mirade de sentimentos, querendo beij-lo, mas tambm saber lidar com aquela atrao incontrolvel.
- Lembre-se do que lhe falei, Annebelle. - Raymond afastou-se. - Da prxima vez, voc ter de pedir-me.
De imediato, ela rememorou o beijo e sua reao. Achou que seria fcil ficar longe de Raymond. Acreditou que no teria problema em no pedir...
Foi o orgulho que a fez endireitar-se.
- Conversarei a srio com Mark amanh.
- Em minha opinio, agir seria melhor do que conversar, Annebelle.
- Vou me lembrar disso. - Ergueu-se e foi at a escada.
- Annebelle, voc se esqueceu de uma coisa.
Ela olhou para trs, imaginando se Raymond a tomaria nos braos e...
Entretanto, ele estendeu-lhe a caneca de leite.
- Beba isto, para dormir melhor.
Dormiria bem melhor se conseguisse tirar Raymond Coleburn da cabea. Quando pegou a caneca, seus dedos se tocaram. Nenhum dos dois se moveu.
- Boa noite. - Annebelle estava cansada daqueles joguinhos.
 -Tenha bons sonhos.
No havia motivo para olhar para trs. Sabia que se o fizesse sonharia a noite toda com aquele homem maravilhoso e encantador.

Na manh seguinte, Raymond saiu logo cedo para alimentar os animais e cortar lenha.
Annebelle despertou com a energia renovada, e Raymond suspeitou que se tratava mais de determinao do que de uma boa noite de sono. Agia como se tivesse pensado muito em tudo o que estava acontecendo e tomado algumas decises importantes. Ele, todavia, nem imaginava quais seriam.
Decerto insegura, Annebelle evitava chegar muito perto, mas Raymond recordava muito bem o brilho em seus olhos, na vspera. Fora uma estupidez dizer-lhe que teria de pedir-lhe para ser beijada. Por conta disso, na certa nunca mais a beijaria, j que era to teimosa.
Ficou desapontado, mas procurou afastar o sentimento e continuar a cuidar dos cavalos.
Quando voltou para casa, Annebelle colocava o caf na mesa: ovos mexidos, leite quente, fatias de po torrado. Chamou o filho para comer e sorriu ao v-lo descendo as escadas. Fez o possvel para conseguir conversar, e logo Mark estava lhe contando sobre o peru que desenhara na aula de artes.
- Falta bem pouco para o dia de Ao de Graas, querido. Acho que precisamos comprar um peru.
- Tem certeza de que quer ter todo esse trabalho? - perguntou Raymond.
-  Ao de Graas - ela repetiu, como se aquilo explicasse tudo, aps olhar para o filho.
Esse dia nunca significara nada de especial para Raymond, como a maioria dos feriados. E tambm no tinha ningum com quem comemor-lo.
Como no encontrara nenhum sinal do irmo, decidiu colocar anncio em alguns dos grandes jornais de Chicago at Los Angeles. Temia alimentar muitas expectativas, mas era sua ltima tentativa antes de contratar um detetive particular.
- Por que no faz uma lista, Annebelle? Mark e eu poderemos ir at a cidade e comprar o que precisa. Mas s iremos fazer as compras se voc prometer que poderemos ajud-la, no , companheiro?
Mark arregalou os olhos, surpreso.
- Sim, eu posso picar o po para o recheio.
Contente, Annebelle sorriu para o filho e bebeu mais um gole de suco. De repente, escutaram o choro de Amanda, que vinha da sala.
A expresso alegre de Mark desapareceu como que por encanto.
Em vez de sair correndo amparar a filha, porm, Annebelle virou-se para o menino:
- Por que no me mostra o desenho que fez na escola? Posso olh-lo enquanto dou de mamar para sua irm.
- Verdade? - Mark e fitou, confuso. 
- Lgico que sim. Vou esper-lo na sala.
O olhar de Raymond encontrou o de Annebelle. Pelo visto, as mudanas s lhes trariam satisfao. Para tanto, resolveu dar-lhe espao para se adaptar.
- Fique sossegada, Annebelle, eu cuido da cozinha. Depois, irei para o celeiro.
Ao ver o lindo sorriso agradecido, o corao de Raymond bateu mais forte. Aquele gesto o fez acreditar que a partir de ento comeariam a se entender.
Sentia que Annebelle gostava de sua companhia, de t-lo por perto. Estaria indo longe demais pensando assim?
Antes de sair, escutou Annebelle contando a Mark como seria o desenvolvimento da irm, desde a primeira gargalhada at o primeiro passo.
Contente por me e filho estarem se entendendo, ele dirigiu-se para o celeiro.

Cerca de uma hora depois, Raymond avistou uma bela caminhonete prateada, reluzindo de to polida. Deveria ser avizinha, Marvis O'Neill, pois Annebelle lhe dissera que a amiga viria visit-la.
Raymond pretendia cuidar um pouco do jardim, mas mudou de idia assim que viu o motorista. Um homem alto e moreno, usando chapu, caminhava atrs de um casal de mais idade. Sentiu a curiosidade aumentar.
Seguiu at a residncia e, entrando, deparou com todos, exceto Mark, na sala de estar. A senhora de cabelos grisalhos segurava Amanda. Seu marido estava ao lado, olhando orgulhoso para o beb. Mas foi o jovem que chamou a ateno de Raymond.
Acomodado ao lado de Annebelle, ele a olhava como se fosse a mulher mais deslumbrante do mundo. E era, mesmo. Ela usava uma malha vermelha de gola alta e uma cala jeans. Tambm tinha os cabelos soltos.
Aproximando-se, Raymond pigarreou e manteve o olhar fixo em Annebelle. Todos voltaram a ateno para ele.
- Raymond, estes so Marvis e Rod O'Neill, e o filho deles, Dallas. Queridos, apresento-lhes Raymond Coleburn. Ele est me ajudando a cuidar da fazenda - explicou, com as faces rosadas.
- Mame deveria ter dito que eu viria para o dia de Ao de Graas, Annebelle. Eu poderia t-la ajudado.
- Voc j tem preocupaes demais, Dallas. De qualquer maneira, muito obrigada.
Negando o cime que comeava a tortur-lo, Raymond estendeu a mo para o rapaz, procurando ser amistoso.
- Prazer em conhec-lo, Dallas.
- O prazer  meu, Raymond. De onde voc ?
- Meu ltimo emprego foi em uma fazenda em Idaho, se  isso o que quer saber.
O olhar de Dallas era intenso, e Raymond sabia muito bem o que lhe passava pela cabea.
- Annebelle verificou minhas referncias.
Ela tocou o brao de Dallas, dando-se conta do clima tenso.
- Que tal um pouco de caf?
Mark entrou correndo, trazendo seu desenho.
- Quer ver o que fiz, Dallas?
Ele sorriu e afagou a cabea do menino.
-  um lindo peru, Mark.
As duas mulheres foram para a cozinha preparar o caf, e os homens ficaram na sala, conversando.
Dallas contou que terminava o mestrado em Biologia Animal na Universidade de Illinois. Assim que conclusse o curso, voltaria para o lar, no final do vero. Alm de cuidar do rancho da famlia, treinaria cavalos.
- Amanda  uma linda menina, Annebelle - disse Marvis, olhando para o beb no carrinho.
- Tambm acho.
Annebelle gostava muito de Marvis O'Neill e a respeitava como me. Seu pai e Rod O'Neill tinham sido muito bons amigos, e essa amizade tambm existia entre ela e Dallas. Conheciam-se desde bebs e haviam freqentado a mesma escola.
- Faz quanto tempo que o sr. Coleburn est aqui? - Marvis apanhou as xcaras no armrio.
Annebelle j esperava o interrogatrio. Logo mais, outros vizinhos, alm de Marvis e Rod, saberiam que Raymond trabalhava na fazenda. As notcias corriam.
- Uma semana. Ele ficou preso aqui sem gasolina, no domingo passado, e dormiu no celeiro. E depois, bem... Foi Raymond quem trouxe Amanda ao mundo. Devo-lhe muito.
- Ah, ? E at quando pretende ficar?
- Ainda no sei. Raymond est procurando um parente. - Annebelle no se achava no direito de entrar em mais detalhes.
- Sabe que haver comentrios, no, querida? Faz menos de um ano que Pete faleceu.
No existia cerimnia entre as duas.
- No ligo a mnima para esse tipo de coisa, Marvis. Raymond  uma pessoa excelente. No sei o que teria sido de mim sem sua ajuda, na semana passada.
- Sabe que pode me telefonar a qualquer hora...
- Marvis, ns j falamos sobre esse assunto. Aprendi a me cuidar sozinha h sculos. Raymond est trabalhando para mim, e eu lhe pago com hospedagem e comida.
- O moo dorme aqui dentro?!
- Sim, no quarto que era de papai. No h nada de errado com isso.
"A no ser o ltimo beijo, e todos os outros que quero lhe dar."
- Sei que voc  muito independente e sabe o que faz, querida, mas lembre-se de que as pessoas adoram mexericos.
Quando as duas voltaram para a sala, Annebelle notou uma certa tenso no ar.
Foi Raymond quem se pronunciou primeiro:
- Dallas me falou que consertou uma parte da cerca que estava quebrada. Eu lhe disse que posso fazer isso enquanto estiver aqui.
A competio entre os dois era evidente, e Annebelle sabia que tinha de tomar uma atitude.
- Mais uma vez, muito obrigada por tudo o que fez por mim durante a gravidez, Rod.
- E ns continuamos adorando seus bolos e suas tortas - respondeu o pai de Dallas, olhando para a esposa.
Annebelle passou uma xcara de caf para Dallas.
- Tambm lhe agradeo. E, quando Raymond for embora, eu lhes avisarei se precisar de alguma coisa.
- Promete? - Dallas indagou, com o carinho da amizade de muitos anos.
- Prometo.
Houve um silncio pesado durante alguns segundos, at que Raymond se levantou.
- Foi um prazer conhec-los, mas tenho de voltar ao trabalho.
Percebendo que ele no estava  vontade, Annebelle no se manifestou em contrrio.
- Voc no tomou seu caf. Vou colocar um pouco na garrafa trmica.
Raymond a seguiu at a cozinha. E no tirou os olhos dela.
- O que aconteceu, Raymond?
- Nada, Annebelle. Gostaria apenas de lhe fazer uma pergunta. - A voz dele era profunda e baixa. - O que Dallas O'Neill significa para voc e desde quando isso vem acontecendo?


CAPTULO V

A pergunta de Raymond assustou Annebelle. No s a insultou como a deixou furiosa.
- O que voc quer dizer com "h quanto tempo isso vem acontecendo"? Do que est me acusando?!
- Nunca fala sobre seu marido, Annebelle. No vi nenhuma fotografia dele. E me parece bastante ntima de Dallas O'Neill.
- ntima?! - O tom de voz de Annebelle era to baixo quanto o dele. - Dallas e eu nos conhecemos desde crianas. Quanto ao meu marido... no  de sua conta. E Dallas tambm no. - Passou a garrafa trmica para Raymond.
- Vocs namoraram? - insistiu.
- Dallas e eu somos amigos. Sempre fomos e sempre seremos. Agora, preciso voltar para meus convidados, se me der licena.
Annebelle tentou passar pela porta, mas Raymond segurou-lhe o brao.
- Seu casamento foi infeliz?
Ela no queria conversar com Raymond sobre esse assunto. No naquele momento. E talvez nunca. Sentia-se culpada com os sentimentos que ele lhe despertava, ainda mais por nunca ter experimentado o mesmo pelo marido.
- Pare de insistir nesse assunto, Raymond, pois posso decidir que no preciso de voc aqui. - Ignorando o olhar intenso, voltou para a sala de estar.

Annebelle no viu Raymond de novo at a hora do jantar.
- Vou tomar um banho - disse ele, assim que apareceu na cozinha.
Tinha um jeito frio, e quase nem sorriu ao falar com Mark. 
- Mame me ajudou a recortar fotos de animais para a escola, Raymond. Quer ver?
- Pode ser depois de comermos, amigo? - Raymond s esperou a anuncia do menino para seguir at seu quarto.
Nem sequer fitou Annebelle, que foi invadida por diversas emoes conflitantes.
Todo o tempo em que estivera com os O'Neill no conseguira parar de pensar em Raymond. Permaneceram em silncio durante todo o jantar, e o que mais a aborrecia era ele t-la acusado de ser infiel, mesmo que nas entrelinhas. Como podia imaginar tal coisa?
Algo fora do comum aconteceu depois que Raymond a ajudou a arrumar a cozinha: ele foi para seu quarto. Disse que tinha algo para fazer. Annebelle achava que a estava punindo por no abrir-lhe sua vida pessoal.
Procurando distrair-se, ela fez biscoitos com Mark, depois assistiram a um filme na televiso.
- Posso dizer boa-noite para Raymond, mame?
- Acho melhor no o incomodarmos, hoje, querido. Eu o levo para a cama assim que terminar de amamentar Amanda.

Depois de pr o beb no bero, Annebelle dedicou seu tempo a Mark. Leu-lhe uma histria, rezaram juntos, e ento desejou-lhe boa-noite.
- Est brava com Raymond, mame?
- Estava - respondeu Annebelle, com sinceridade, pois no mentia para o filho. - Ele falou algumas coisas de que no gostei. Mas ns vamos resolver o assunto. No se preocupe.
- No quero que ele v embora, mame. .
- Sei que no, querido. Tentarei convenc-lo a ficar at depois do dia de Ao de Graas.
Embora no parecesse satisfeito, Mark assentiu e fechou os olhos. Annebelle o beijou e saiu.
Foi at a cozinha, mas nenhum sinal de Raymond. Poderia tentar esquecer o que acontecera entre eles e ir se deitar, mas sabia que no conseguiria dormir. Seu pai sempre lhe dizia que, para afastar a insnia, nada melhor do que terminar o dia em paz. E, infelizmente, isso significava ter de conversar com Raymond.
Como no era de seu feitio fugir dos problemas, Annebelle foi, determinada, at o quarto dele e bateu  porta.
Depois de alguns momentos, Raymond a abriu. Ainda com a camisa verde e a cala jeans que colocara logo aps o banho, estava maravilhoso e muitssimo msculo.
Annebelle sentiu a boca seca quando viu a expresso dele, quase desafiando-a a dirigir-lhe a palavra.
- Precisamos conversar, Raymond.
- Era o que eu queria fazer antes, mas voc, no.
- Raymond, no vim at aqui para discutirmos.
Depois de estud-la com ateno, ele se aproximou.
- E por que veio, ento? Algumas vezes as discusses so necessrias. Certas ocasies, as conversas no so to agradveis como gostaramos que fossem.
- Bem, resolvi vir, pois gostaria de saber o que o fez imaginar que fui infiel a meu marido.
- Voc foi?
Todas as boas intenes de Annebelle explodiram em um sonoro "no". Seus olhos se encheram de lgrimas. Em seguida, virou-se e saiu pelo corredor.
Pelo visto, se enganara. No deveria ter tentado fazer as pazes com Raymond. E tambm no poderia lhe pedir para ficar at depois do feriado, em nome do filho.
Em algumas passadas, Raymond a alcanou, virou-a e levou-a de volta para seus aposentos.
- No vou entrar a com voc! - Ela soltou-se. - Isso provaria o que voc pensa de mim.
Apesar de tentar evitar, o pranto escorreu-lhe pelo rosto.
- Annebelle, acho que no tem idia do que penso de voc.
Havia algo no olhar de Raymond que a fez perder o flego. No soube quem se moveu, mas, quando Annebelle se deu conta, estavam mais perto do que antes.
A camisa dele quase lhe tocava o suter.
- No conheo muito sobre casamento, mas sei que podem dar errado. E acho que Dallas quer ser mais do que seu amigo.
- Ele nem mora aqui, Raymond. Nos dois ltimos anos, s nos encontramos nos feriados.
- Poucas vezes so suficientes... quando um homem encontra o que quer.
- Dallas no me quer. E eu tambm no o quero. No dessa maneira.
Raymond a estudou por alguns momentos.
- Fiquei com cime, Annebelle, e sei que voc vai dizer que eu no tinha direito. Mas no fugiu dele como foge de mim, certo?
- No fujo de voc - murmurou.
- Tem certeza?
O bom senso lhe dizia para sair correndo, mas ela no conseguia se mexer, como se algo a estivesse prendendo ali.
- A companhia de Dallas me agrada. Agora, com voc...
- Continue.
- Sinto coisas que no deveria sentir. Acabei de ter um beb, sou viva e...
Raymond tocou-lhe os cabelos.
-  uma mulher, Annebelle. E eu, um homem. Vime atrado por voc desde o instante em que cheguei aqui, mas disse a mim mesmo que era loucura.
- Mas eu estava grvida!
- Sim, mas agora no est mais. Nada mudou, a no ser... Bem, imagino que esses sentimentos no sejam s de minha parte. So?
Raymond era o homem mais honesto que Annebelle j conhecera em toda a vida.
- No - ela teve de confirmar.
Depois da confisso, Raymond no a puxou para beij-la, nem tampouco a abraou. Ficou ali parado, segurando-lhe uma mecha dos cabelos.
Annebelle lembrou-se do que ele dissera. S a beijaria se ela pedisse. Mas lhe faltava coragem, pois temia as possveis complicaes e conseqncias. Tinha de pensar tambm em seus dois filhos.
- Quer que eu v embora, Annebelle?
- No. Falei a Mark que voc passaria o dia de Ao de Graas conosco. Sei que ele gostaria que ficasse at o Natal.
- E voc?
- Concordo com meu filho.
Raymond ficou em silncio, ponderando, at que decidiu:
- Est bem. Ficarei at o Natal. E talvez nos acostumemos um com o outro.
Para alvio de Annebelle, ele deu um passo para trs, na direo do quarto.
- At amanh - despediu-se Raymond, e entrou.
Quando viu a porta fechada, Annebelle suspirou, aliviada, sabendo que nunca se acostumaria com Raymond Coleburn sob seu teto. E muito menos em sua vida.
Aps o jantar de Ao de Graas, Raymond inclinou-se na cadeira e sorriu para Annebelle.
- Essa refeio foi digna de um rei.
- Apesar de vocs terem me ajudado a prepar-la, Raymond?
- Por isso ficou to boa, no , Mark?
O garoto o ajudara a misturar o recheio e a rechear o peru, enquanto Annebelle preparava a calda de laranja.
- E o melhor  que Amanda dormiu o tempo todo - disse o garoto, olhando para a me em seguida.
- No ano que vem, estaremos dando pur de batata para sua irmzinha e tentando mant-la fora do caminho. Voc pode preferir que ela volte a ser beb assim que comear a andar .
Raymond imaginou Amanda com os cabelos mais compridos, os olhos brilhando como os da me, correndo de um lado para o outro.
- E por falar em ajuda, tenho de fazer tortas para o bazar de sbado. Voc vai me ajudar?
- Acho que sim. Ns iremos ao bazar?
- Que bazar? - Raymond quis saber.
- Todos os anos, no sbado depois do dia de Ao de Graas, nossa igreja patrocina um bazar de Natal. Vendem-se doces e artesanato feitos pelas mulheres dos fazendeiros. Costumo fazer umas dez tortas de abbora.
- Dez?! S pode estar brincando!
- No.  uma tradio, Raymond.
- No  um certo exagero?
- Comearei e verei quantas consigo fazer. Tenho tudo de que preciso. Depender da cooperao de Amanda.
- Tenho certeza de que todos compreenderiam se voc no participasse, este ano. - Raymond no queria v-la mais cansada do que j estava.
- Prometi a Marvis que faria dez tortas, e as farei - afirmou, determinada.
- Est bem. Pelo visto, terei de usar bastante o rolo. - Os olhos azuis a encaravam sem piscar.
- S se no tiver outras coisas para fazer.  Seu tom era firme, e Raymond sabia que seria melhor no insistir, por enquanto.
Os dois tomavam o mximo de cuidado para no se esbarrar na cozinha durante a arrumao. Era como se soubessem que caminhavam sobre uma linha que no deveriam cruzar.
- Nunca comemorei datas especiais - disse ele, precisando falar algo.
- Eu as adoro. - Annebelle lavava a loua. - Sobretudo o Natal. O mundo parece tomar-se um lugar mais tranqilo. As pessoas so mais bondosas, menos egostas. No tenho condies de doar muito para a igreja, mas ajudo com os doces. Eles usam a renda para auxiliar os membros mais necessitados da congregao.
A vida de Annebelle era to desconhecida para Raymond, a maneira como era ligada a tudo e a todos... 
- No conheo muito de tradies.
- Se ficar para o Natal, Mark e eu lhe mostraremos algumas. - A expresso dela era brincalhona, porm, sincera.
Entretanto, usara a palavra "se". Era como se esperasse que Raymond fosse arrumar suas malas e partir a qualquer momento. 
- J disse que passarei o Natal com vocs, Annebelle. 

Mais tarde, sentado  mesa da cozinha com um bloco de notas e os endereos dos maiores jornais de Chicago a Los Angeles, Raymond selou vrios envelopes, tentando no perder as esperanas.
Eram poucas as chances de conseguir encontrar o irmo. Quando fora at a casa em Billings para onde tambm tinham sido enviadas as certides de nascimento e bito, uma senhora o recebera. Raymond perguntou sobre os antigos proprietrios, mas ela s soube informar-lhe que tinham se mudado para o Colorado.
Concentrado em colocar mais anncios nos peridicos do Colorado, Raymond ps a ltima carta em cima da pilha.
Annebelle estava sentada na sala com Mark, quando Amanda comeou a chorar. J passara da hora de o garoto ir para a cama, e agora ele parecia mais contente. A me lhe dava mais ateno, mas mesmo assim devia ser difcil no ser mais filho nico.
- Por que no me deixa cuidar um pouco de Amanda enquanto voc pe Mark para dormir? - sugeriu Raymond.
- Mas voc nunca a pegou no colo! - Annebelle arregalou os olhos.
-  verdade, mas creio que no deve ser difcil.
A expresso de Annebelle no era das mais satisfeitas.
- No se preocupe, vou tomar cuidado - garantiu Raymond. - Prestei ateno quando voc ensinou Mark a segur-la.  preciso manter a cabea apoiada.
- Ele consegue, mame. Raymond  bom em tudo o que faz - intrometeu-se o pequeno.
-  voc quem est falando, companheiro.
Quando o choro da menina aumentou, Annebelle resolveu ceder.
Raymond estendeu os braos e esperou.
- Muito bem, minha garota. - Ele acariciou-lhe o queixo. - Vamos ficar passeando pela sala at a mame voltar. Prometo que no vou deix-la cair ao cho.
Annebelle se espantou com o silncio repentino da filha.
- Pelo jeito, Amanda gostou de sua voz - comentou ela.
- Ento vamos ficar conversando.
Sozinho na sala com o beb, Raymond caminhava para l e para c, conversando com Amanda como se ela fosse da mesma idade de Mark. No entendia por que as pessoas tratavam nens como seres de outro planeta.
Parou ao lado da janela, apontando para a lua e mostrando  menina como as estrelas formavam figuras no cu.
Envolvido em contar a Amanda sobre as constelaes, nem percebeu que Annebelle voltara e estava parada a seu lado.
- Pelo visto voc conhece muito bem o firmamento.
- Um pouco, Annebelle. Quando criana, ganhei um livro sobre as estrelas, a lua e o sol. Foi uma exceo, pois, no orfanato, os garotos no tinham seus prprios brinquedos, tudo era de todos. No entanto, uma das professoras me presenteou com o livro por acreditar em meu potencial. Na hora, no entendi direito, mas me pareceu importante, e eu o lia todas as noites, enquanto os outros dormiam.
Junto com Annebelle, Raymond olhou para a lua atravs da vidraa coberta de gelo.
- Est na hora de levar Amanda para cima.
- Quer um copo de leite antes de se deitar, Annebelle?
- Sim, por favor. E pegue mais um pedao de torta.

Assim que Annebelle voltou para a sala, deparou-se com um prato cheio de migalhas, uma caneca vazia e seu copo de leite ao lado. Raymond, porm, estava parado novamente  janela, perdido em seus devaneios.
A luminosidade que entrava era pouca, mas podia-se distinguir com perfeio seu perfil. Annebelle quis saber o que se passava pela cabea dele. Aproximou-se, mas ele no se mexeu, como se no a tivesse notado.
- Hoje foi um dia muito especial para mim. Mais do que voc possa imaginar - disse ele, de repente.
- Para ns tambm - admitiu Annebelle, com sinceridade.
O olhar intenso que recebeu deveria t-la assustado, mas, pelo contrrio, a excitou.
- Ainda sou um estranho nesta casa? Quer que eu continue me mantendo distante?
Annebelle sabia que seria mais seguro se fosse desse modo. Alm disso, rotul-lo de "estranho" era bem mais fcil. Precisava, contudo, parar de mentir para si mesma e para Raymond.
- No, no  mais um desconhecido, mas ainda no sei direito o que quero. Minha vida mudou muito no ltimo ano.
- Acredito que sabe o que quer, sim. Pelo menos por ora. E o agora  tudo o que temos, Annebelle.
- Voc no tem sonhos?
Sem hesitar, Raymond fez que no.
- Vale a pena pensar em algo que pode nunca acontecer? Prefiro viver com o que tenho em mos e aproveitar o mximo que puder.
Eles estavam muito prximos, envolvidos pela intimidade da noite que entrava pela janela. O silncio era quase gritante, interrompido apenas por alguns barulhos da casa.
- O que voc quer, Annebelle?
A essncia masculina de Raymond a excitava, e ela sabia muito bem o que desejava naquele momento, mas no como agir. Ser que teria coragem de dizer, mesmo que ele esperasse essa atitude? Mas, se quisesse sentir aqueles lbios de novo, teria de pedir.
- Eu...
- Continue - murmurou ele, sensual, encorajando-a a terminar.
- Voc...
- Sim?
- Voc me beijaria? - Annebelle falou depressa, envergonhada, mas Raymond no se deu conta.
Tomou-a nos braos e pressionou-a contra seu corpo. Depois, ficou olhando-a, admirado.
- O que foi? - Annebelle ainda estava surpresa com sua atitude.
- Achei que voc nunca fosse pedir.
Ento, com um ligeiro inclinar da cabea, seus lbios quentes, firmes, tocaram os de Annebelle.
Ela sentiu as pernas bambas quando a lngua de Raymond deslizou por seu lbio superior. Envolveu-lhe o pescoo para garantir que no cairia. Entretanto, as sensaes que vivenciava faziam-na sentir como se estivesse entrando em um grande redemoinho, de onde nunca mais sairia. A lngua dele era macia e provocante, movimentando-se com sensualidade.
Annebelle no conseguia sentir o cho, e percebeu que Raymond a puxara mais para cima para poder aprofundar a carcia. Esqueceu-se de tudo e de todos, concentrando-se apenas em Raymond e no momento, nas sensaes que ele lhe proporcionava. Apenas prazer...
Durante seu casamento, Annebelle no tinha desejo de estar com o marido, mas agora sentia vontade de ficar com Raymond. Com ele, sentia-se bonita, atraente, desejada. Entretanto, no poderiam fazer nada durante algumas semanas e...
Queria mais? Em que estava pensando? Era necessrio servir de exemplo para seus filhos e ater-se aos valores em que sempre acreditara.
Alm do mais, dali a algumas semanas Raymond talvez nem estivesse mais junto deles. E ele mesmo dissera que no acreditara em sonhos ou no futuro.
Com esse pensamento perturbando-lhe a mente, Annebelle empurrou-o pelos ombros. Raymond ainda a segurava, com o olhar cheio de desejo, quase to sedutor quanto seu beijo. Mas no podia se deixar fascinar, afinal ele era um homem que no criava razes nos lugares.
- Por favor, coloque-me no cho, Raymond.
Agindo contra sua vontade, Raymond a obedeceu.
- No vai agir como se nada tivesse acontecido, no , Annebelle?
Como poderia? Ainda mais por, de certa forma, ter sido sua culpa. Ela pedira o beijo.
- No, mas...
- Eu sabia que escutaria um "mas" - resmungou Raymond.
- Ns dois somos muito diferentes.
- Por isso nos gostamos tanto. 
- Pode ser. Talvez voc me encante por ter estado em tantos locais em que jamais estive. Porm, encanto no dura, e eu acredito em compromisso. Fui criada escutando que um homem e uma mulher no devem... Bem, voc sabe... antes do casamento.
- No fez nada com seu marido antes de se casar?
- No.
Annebelle sempre desconfiara que Pete s se casara por sexo, ainda mais por no agir como se quisesse estar casado. E Annebelle se perguntava como conseguira enganar-se tanto a respeito de uma pessoa, pois ele nunca demonstrara o menor interesse pela esposa ou mesmo pelo filho.
Raymond passou a mo nos cabelos.
- Ento quer dizer que devo ficar bem longe de voc, caso minhas intenes ho sejam as mais srias?
- No sei se estou preparada para essas intenes mais srias - respondeu ela, depois de pensar um pouco. - No pretendo me envolver com nada que possa complicar mais minha vida do que cuidar de duas crianas e desta fazenda.
Mesmo pensando assim, Annebelle queria que Raymond ficasse.
- Todavia, posso garantir que meu corao tem bastante espao para um amigo - terminou, acreditando que poderia controlar a atrao que sentia.
- No acho que um homem e uma mulher possam ser apenas amigos se existe um algo a mais entre eles. Mas podemos tentar, se voc quiser.
A amizade de Annebelle com Dallas nunca tivera maiores problemas ou complicaes. Todavia, em momento algum sentira algo a mais por ele.
- Sim, acho melhor.
Com um suspiro, Raymond a observou por alguns instantes, demorando-se em seus lbios. O ar ao redor deles carregava toda a excitao que tentavam afastar.
Annebelle respirou fundo.
- Vou me deitar. - Tinha de sair dali, ir para seu quarto, afastar-se daquele homem irresistvel e esquecer-se do poder de seu beijo.
Porque, se isso no acontecesse, jamais conseguiriam ser amigos.

O salo anexo  igreja estava repleto de gente, na manh de sbado. Era a primeira vez que Annebelle levava Amanda para passear.
Planejara passar para entregar as tortas e rever algumas pessoas que s encontrava nessas ocasies. Logo que entrou, viu-se rodeada por um grupo de mulheres querendo conhecer sua filha.
- Ouvi dizer que ela se chama Amanda - comentou uma delas.
- E que o parto foi na estrada.
- Tambm sabemos que h um homem morando com voc - adicionou uma terceira.
Naquele momento, Raymond entrou carregando a caixa com os doces. Como de costume, Mark vinha atrs, sentindo-se muito importante por tambm estar com sua torta na mo.
As mulheres se calaram ao ver o pequeno com Raymond. Uma delas o analisou de alto abaixo, outra franziu a testa e outra ainda olhou para Annebelle, pedindo uma explicao.
Entretanto, antes que ela pudesse se manifestar, Raymond as cumprimentou:
- Bom dia, senhoras. Annebelle, onde devo colocar isto tudo?
- Na cozinha - respondeu ela, desejando no ter feito quitute algum.
Raymond divertiu-se ao notar que era o centro das atenes de todos naquele lugar.
- Ento  verdade... - disse a mais velha.
- No sei ao certo o que voc escutou. - Annebelle apertou a filha contra o peito. - Para minha sorte, o sr. Coleburn apareceu antes de eu entrar em trabalho de parto. E quando as contraes comearam, no tivemos tempo de chegar ao hospital. Portanto, Amanda nasceu em suas mos,  beira da estrada. Devo-lhe a vida de minha filha e muito mais. E ele ficar conosco at eu poder cuidar de tudo sozinha de novo.
- Mas onde o moo est hospedado? - Grace Harrison morava em uma .fazenda bem prxima  dela.
Annebelle sabia que no havia como esconder algo daquela gente. De alguma forma, elas sempre ficavam sabendo de tudo.
- No quarto que era de meu pai. E no sei o que seria de mim sem o auxlio dele desde que Amanda nasceu.
Grace virou-se para cozinha. Raymond estava abaixado na frente de Mark, abrindo-lhe o zper do casaco. Ambos se divertiam com alguma coisa.
- Parece que ele e Mark se do muito bem.
- Sim, Grace.
- Mas o sr. Coleburn no vai ficar aqui? - Foi a vez de Flo Jansen indagar.
As trs mulheres trocaram olhares, mas Annebelle recusou-se a ficar envergonhada. Ningum tinha de se meter em sua vida.
- Vou dar uma volta para ver o que os demais trouxeram. Depois, levarei Amanda para casa.
Afastando-se das conhecidas, Annebelle sentiu que estava sendo observada, e tentou afastar a sensao de ter feito algo errado.
Observava um babador bordado quando Raymond apareceu a seu lado.
- Elas querem minha ficha completa?
- No tem graa... - respondeu Annebelle, um tanto trmula.
- Annebelle...
- Acho melhor irmos embora - sugeriu, desvencilhando-se do toque de Raymond em seu ombro.
- Est bem. Irei pegar Mark, e nos encontramos no carro.
Com os olhos cheios de lgrimas, Annebelle fitou a filha e acariciou-lhe o queixo.
- Tudo ficar bem, Amanda. Acredite na mame.
Pensando assim, cruzou o hall de entrada, desejando no ligar para o que os outros pensavam e procurando descobrir o que na verdade queria.


CAPTULO VI

Duas semanas antes do Natal, Raymond entrou em casa perto da hora do almoo,
depois de ter trabalhado a manh toda. O aroma de canela e algo assando penetrou-lhe nas narinas.
Depois do incidente na igreja, o clima entre os dois no era dos melhores. No chegaram a conversar a respeito, porm, Raymond desconfiava que ela no gostava de ser alvo de mexericos. Mas, como no acontecera nada de mais, no havia motivos para maiores preocupaes.
Todavia, ambos sabiam que existia algo de muito forte entre eles, e esse era o grande problema.
- Que cheiro bom! - elogiou Raymond.
Tentava agir de forma natural, mas estava cada vez mais difcil. Ainda mais quando se deparava com aqueles lindos olhos castanhos to expressivos.
- Fiz pudim de po - disse Annebelle. - Est quase pronto. Ah! Chegou uma carta para voc.
Ela apontou para a mesa, onde havia um envelope ao lado do galheteiro.
Seria a resposta de algum de seus anncios? O corao de Raymond disparou. Pegando o envelope, sentou-se em uma cadeira e ficou olhando-o por alguns momentos. John Morgan era o remetente. De Denver.
- Raymond? O que foi?
- No sei se quero saber. O contedo desta mensagem pode mudar para sempre minha vida.
- A nica maneira de voc saber se isso vai acontecer  abrindo-a.
Em um primeiro momento, Raymond achou que deveria faz-lo em particular, mas ento percebeu que estava contente por ter a companhia de Annebelle.
Assim, rasgando o envelope, pegou a carta e a desdobrou. Pensou que seu corao saltaria pela boca  medida que lia e, assim que terminou, encarou Annebelle.
- Morgan diz que ele e a esposa adotaram uma criana h trinta e um anos. O nome do garoto era Hunter Coleburn. Estavam morando em Tucson, na poca, mas se mudaram para Billings logo depois. E agora moram em Denver. 
- E ele conta onde est Hunter?
-  advogado de uma empresa multinacional e est fora do pas.
Raymond fitou a missiva de novo. A informao que acabara de dar a Annebelle pairava no ar entre eles.
- E voc pretende ir para Denver?
Dali a duas semanas seria Natal. Raymond no deveria sentir-se ligado quele rancho, pois nunca passara por uma experincia como aquela antes. E Hunter Coleburn nem estava nos Estados Unidos. Por que sair correndo, agora que Annebelle precisava dele? Mesmo que no o admitisse, ela ainda no tinha condies de cuidar de tudo sozinha.
- H os cavalos e o gado para alimentar, e muita neve pela frente. Isso pode esperar mais um pouco. - Raymond guardou o envelope e colocou-o no bolso.
- Deseja ter uma famlia, Raymond?
O olhar de Annebelle lhe dizia que ela no deixaria o assunto para depois.
- Nunca tive uma de verdade; portanto, no sei se quero.
- Mas no gostaria de conhecer seu irmo?
- Nem sei se ele  meu irmo. E, mesmo se for, Hunter est fora do pas.
- Entretanto, se voc fosse falar com os pais dele...
- Achei que tivesse me dito que Mark gostaria de ter-me aqui nas frias.
- Sim, ele quer, Raymond, mas ns no somos seus parentes. E no quero ser responsvel por voc no encontrar seu irmo.
- No falei que no irei a seu encontro. Responderei para John Morgan e lhe mandarei uma fotografia. Se Hunter e eu somos gmeos, ele poder confirmar a semelhana. E, se tudo no passar de coincidncia, tambm saberei. De qualquer forma: estarei aqui no Natal. A menos que queira que eu v embora, Annebelle. 
- De jeito nenhum. 
- Ento, pare de agir como se estivesse cometendo um crime, como se no devssemos passar alguns momentos juntos de vez em quando.
As faces de Annebelle enrubesceram no ato, pois Raymond tinha toda a razo:
- No  como se tivssemos muito tempo para passar juntos, Raymond.
- Uma famlia e uma fazenda exigem dedicao, tudo bem, mas, se quisssemos encontrar tempo, imagino que no seria to difcil assim. Na verdade, pretendo ir at a cidade fazer algumas compras. Ser que Marvis poderia ficar com Amanda para voc ir comigo, enquanto Mark est na escola?
Raymond desejou que Annebelle no se mostrasse to incerta. Quis poder sonhar com o futuro. Todavia, aprendera que sonhos eram caprichos da vida, imagens que podiam magoar as pessoas. Depois, como fumaa, eles desapareciam e deixavam as pessoas sozinhas, entregues  realidade deste mundo. 
J esperava que ela recusasse seu convite. 
O timer do fogo tocou, e Annebelle decidiu adiar a resposta. Abriu a porta do forno e tirou o pudim de po. Seu aroma era delicioso.
Por fim, colocou-o em cima da mesa e tornou a olhar para Raymond.
- Tambm preciso fazer algumas compras.
- Quanto tempo Amanda pode ficar sozinha? Gostaria de convidar voc para almoar.
- Posso tirar leite e guardar na mamadeira.  o que se faz em situaes de emergncia. Dessa forma, no teremos de nos preocupar com o horrio.
Raymond no conseguiu evitar um sorriso largo.
- Podemos dizer que  um encontro - provocou ele.
- Vamos fazer compras, Raymond.
- Ento ser um encontro no shopping center.
- Algumas vezes voc... - Annebelle balanou a cabea de um lado para o outro.
- Continue. - Raymond levantou-lhe o queixo com a ponta dos dedos.
Ela, contudo, no respondeu.
Ficar longe de Annebelle, tentar no desej-la era uma tarefa quase que impossvel para Raymond.
Diante da quietude dela, Raymond inclinou-se e levou sua boca at a dela. O beijo aumentava ainda mais sua vontade de possu-la, det-la s para si.
A simples tentao quase o levava a crer em sonhar. Annebelle se entregou e o beijou com um abandono que o surpreendeu.
Mas ele sabia que seria melhor se a deixasse com vontade. Preferia parar primeiro, antes que Annebelle se confundisse e se convencesse de que tinha de se manter distante. Controlando-se, Raymond interrompeu os movimentos de sua lngua e se afastou.
O olhar que vinha em sua direo lhe disse que agira bem.
- Irei tomar um banho rpido - informou, tentando manter a voz firme. - At mais.
E, antes que Annebelle tivesse tempo de dizer-lhe que isso no deveria se repetir, que no deveriam fazer compra juntos, que ele no deveria achar que se tratava de um encontro, Raymond caminhava para seu quarto, sorrindo, feliz da vida.

Depois de terem feito suas compras separadamente, Annebelle e Raymond se encontraram na loja de brinquedos do shopping.
Todos os sonhos de garoto dele estavam ali: bolas, luvas de beisebol, jogos e bicicletas. Os brinquedos que tinham no orfanato eram doaes, coisas que as pessoas no queriam mais. E jamais Raymond comprara presentes de Natal para algum.
Tambm no se lembrava da ltima vez em que ganhara algo. Mas esse ano seria diferente. Queria presentear. Precisava fazer isso.
Raymond sabia que Annebelle no aceitaria algo muito grandioso. Em seus momentos de folga, ele aprendera a fazer esculturas em madeira e, nas duas ltimas semanas, se dedicava a esculpir um objeto para ela, uma pequena e linda rvore.
Mark, por outro lado, era um assunto bem mais delicado.
- Pensei em comprar uma sela para Mark. O que acha? - Raymond quis saber, ao caminharem entre os brinquedos.
- Mark no precisa de uma nova sela, Raymond. Ele usa a minha. - Annebelle parou de andar.
- E quando vocs cavalgam juntos?
- Eu uso a que era de Pete.
- Creio que seria bom se Mark tivesse uma s dele.
Annebelle lhe pareceu confusa.
-  um presente muito caro, Raymond. No posso permitir que voc faa isso.
- Em minha opinio, o que importa no  o valor do presente, e sim as intenes.
Annebelle recomeou a caminhar, indicando que seria difcil faz-la mudar de idia.
- O que vai comprar para ele? 
- Marvis achou um tren em um bazar.  usado, mas s precisa de uma pintura. E quero dar-lhe um novo taco e uma bola de beisebol. Na primavera, Mark jogar no time da escola.
- E que tal uma luva?
Quando chegaram  parte de itens esportivos, Raymond parou.
- Deixe-me dar-lhe uma luva, uma bola de futebol e talvez uma de basquete. O gramado ao lado do celeiro  excelente para Mark brincar.
- Raymond...
Ele sabia que viria um sermo, mas no queria escutar.
- O Natal  uma poca para se adquirir brinquedos, para as crianas ganharem o que querem, e no para que as privemos dessas alegrias.
- Dentro de meus limites, no privo Mark de nada. E agora tambm tenho Amanda.
- Mais um motivo para eu lhe dar algo especial, Annebelle. Se no for uma sela, que tal um trem eltrico ou uma bicicleta?
- Quer fazer isso para que ele tenha uma lembrana sua quando voc for embora?
Talvez ela estivesse certa. Era possvel que quisesse que Mark tivesse uma boa recordao dos deliciosos momentos que haviam passado juntos. Mas no gostou da forma como Annebelle colocou a situao.
- S acho que Mark precisa saber que  especial, que no  diferente de nenhuma criana. Respeitarei sua deciso, se acha que no devo lhe dar a bicicleta e o trem eltrico, mas comprarei pelo menos as bolas e as luvas.
A caixa registradora estava cheia, apesar de ser meio-dia. Todos faziam compras para o Natal, cada dia mais prximo.
Na fila, Annebelle observava de vez em quando Raymond, observando os olhos azuis com um tom acinzentado. Toda vez que ficava pensativo, as ris dele ficavam assim. Havia algum motivo muito forte para Raymond querer tanto presentear seu filho.
Depois de pagar a conta, foram para o carro para guardar os pacotes. Ento, comeou a nevar.
- Espero que a neve no aumente. Prometi a Mark que procuraramos uma rvore de Natal para cortar quando ele voltasse da escola. Tem alguma coisa contra rvores de Natal?
- Por favor, Raymond, no sou nenhuma avarenta. - Annebelle se aborreceu com o comentrio.  Apenas aprendi a economizar.
Raymond a fitou por alguns instantes, depois fechou a porta da caminhonete.
Annebelle apontou para um canto do estacionamento onde havia rvores iluminadas e pequenas figuras mecnicas de animais e crianas formando um prespio.
- Quer ir at l, antes de almoarmos?
- Voc ficar com frio.
- No se preocupe, Raymond. Agora meu sobretudo me serve direito. - Sorriu.
Em vez de retribuir o sorriso, ele apenas esperou que Annebelle comeasse a dirigir-se s rvores.
Apesar da neve, quase no ventava, e ela estava aproveitando o passeio. Gostava de sair de casa e de estar com Raymond.
Quando chegaram ao prespio, Annebelle ficou encantada com a riqueza dos detalhes.
- Conte-me um pouco sobre o Natal em sua infncia, Raymond.
Raymond ficou quieto por tanto tempo que Annebelle achou que no obteria resposta, mas logo ele confessou:
- Essa poca sempre foi uma grande decepo. Todos vivamos no orfanato, mas amos para a escola com os garotos que tinham pai e me, e havia todo aquele alvoroo em torno do Natal. Eles falavam sem parar sobre o que pediriam de presente, o que Papai Noel lhes traria. E para ns do orfanato no existia Papai Noel. Se nem pais tnhamos, como acreditar em um velhinho vestido de vermelho que trazia brinquedos? No que eu seja ingrato, de forma alguma. Os funcionrios faziam o que podiam por ns. Nunca poderei agradecer por todos os cuidados que recebi naquela instituio. Costumvamos ganhar frutas, balas e um quebra-cabea. Como voc sabe,  difcil viver fazendo economia. Os custos eram reduzidos ao mximo.
Annebelle apertou-lhe o brao em um gesto de ternura.
- O Natal no  s presentes com papis brilhantes, Raymond. No pense que no quero que voc presenteie meu filho. Desejo que Mark perceba que pode ser feliz sem eles.
- Ah, Annebelle... Sei que est com a razo, mas s eu sei como me sentia quando menino. Voltava para a escola depois das frias, e as crianas no paravam de falar sobre tudo o que tinham ganhado no Natal, as viagens com a famlia... Como se no bastasse, levavam os brinquedos para a sala de aula. Era um outro mundo, um mundo do qual no fazamos parte.
Aproximando-se, ela olhou bem nos olhos de Raymond e segurou seu brao.
- Voc merece ser feliz, Raymond, e ter uma famlia e pessoas que o amem.
De repente, Annebelle se deu conta do quanto se preocupava com ele. Comprara um livro para lhe dar de Natal e, em seus momentos de folga, tricotava-lhe um par de meias de l. No era nada demais, porm, em cada ponto dado havia um grande carinho.
Carinho esse que estava se transformando em amor.
Tentou lutar contra o sentimento, mas algo em Raymond Coleburn a envolvera e a conquistara.
Entretanto, Annebelle tinha de evitar um envolvimento ainda mais profundo. No queria ficar com o corao despedaado quando ele fosse embora.
Achou melhor irem para o restaurante, pois, caso ficassem ali, Raymond acabaria por beij-la mais uma vez.
- Tem razo - disse ela, soltando-o. - Est bem frio aqui. Vamos entrar?
- Sim, vamos comer. - Raymond esboou um belo sorriso. - Qualquer coisa que voc desejar .
Ao fitar o estabelecimento to seu conhecido, Annebelle soube que jamais encontraria no cardpio o que na verdade mais desejava. E sabia muito bem o que era.
E estava com muito medo.

Ver o brilho do Natal nos olhos de Mark enquanto procuravam um pinheiro foi uma alegria sem tamanho para Raymond. Ao se lembrar da discusso com Annebelle na loja de brinquedos, percebeu que seria importante para os dois cortar uma rvore para colocar dentro de casa. Ela se apegava demais s tradies.
O dia estivera lindo, mas tinham de ir depressa, porque logo escureceria. Raymond parou ao lado da cerca de arame farpado e constatou que teria de levantar o garoto, pois ele no passaria por baixo.
- A mame me disse que o vov costumava cortar nossas rvores de Natal - falou Mark, quando Raymond soltou-lhe o cinto de segurana.
- E depois que seu av morreu?
- Mame cortava uma rvore bem pequena e a levava para ns. Porm, no dava para colocar muitos enfeites. Podemos pegar uma bem grande?
- Vamos ver se encontramos uma que v at o teto. Mais alta no pode ser, pois Annebelle no nos deixar fazer um buraco no telhado. - Raymond deu risada.
Mark tambm riu, e os dois desceram da picape.
- Voc vai estar aqui depois do Natal? - Mark quis saber, ao se porem a caminhar pelo terreno escorregadio.
- Algum motivo especial para a pergunta? - Raymond desconfiava que o garoto tinha algo em mente.
- Haver o Festival da Diverso na escola, logo depois do Ano-Novo. As crianas faro bonecos de neve com seus pais se o tempo no estiver muito ruim. O mais bonito ganhar um prmio. Tambm h jogos e competies. Pensei que... voc poderia ir comigo.
A julgar pela expresso de Mark, Raymond percebeu que sua presena era mesmo muito importante.
- Claro que irei com voc, amigo. Mas h anos no fao um boneco de neve. Se o clima continuar assim podemos praticar um pouco.
- Est bem!
Raymond no estava acostumado a ter pessoas se preocupando com ele. E, na mesma medida que o incomodava, causava-lhe grande satisfao.
- Bem, Mark. - Tocou o ombro do garoto. - Vamos procurar um pinheiro especial.

Demoraram um pouco mais do que o imaginado para encontrar um pinheiro, pois a neve estava muito alta. Alm disso, Mark no queria apenas uma rvore grande. Tinha de ser perfeita, sem buracos, muitos galhos e de tronco reto.
Quando, por fim, conseguiram achar uma que o agradasse, o sol j estava baixando no horizonte.
 -Teremos de correr - brincou Raymond -, ou precisaremos da lua para nos guiar.
- Estou muito contente por voc ter resolvido passar o Natal conosco. - Mark o encarou com seus grandes olhos castanhos, bochechas rosadas e um belo sorriso.
Raymond sentiu um n na garganta e percebeu que aquele garoto ocupava um lugar cada vez mais especial em seu peito.
- Tambm estou feliz por poder estar aqui com vocs. Mas vamos embora, porque j est tarde. Sua me vai ficar preocupada.

O cu j escurecera quando os dois seguiram para a caminhonete carregando a rvore. Raymond deixou o pinheiro e o serrote no cho e passou o garoto para o outro lado.
- Entre no carro para ficar quentinho, Mark. Vou colocar a rvore na caamba.
Assim que Mark entrou na picape, Raymond jogou o serrote para o outro lado. Ento, pegou o pinheiro de quase dois metros e meio e subiu na cerca de arame farpado. Entretanto, como estava escuro, o erro no clculo do peso o fez puxar mais depressa que o esperado, e a lateral de sua coxa raspou no arame, rasgando a cala e ferindo-o. Blasfemando e culpando-se pela pressa, Raymond ignorou os cortes, ajeitou o pinheiro na caamba e entrou na picape.
- Tudo pronto? - perguntou para Mark, certo de que apenas arranhara a perna.
- Estou morrendo de fome, Raymond.
- Eu tambm.
- Que tal enfeitarmos a rvore hoje?
- Temos de perguntar para sua me, amigo, mas creio que no haver nenhum problema.

Annebelle deixara um vaso para a rvore na varanda, perto da porta de entrada. Raymond mandou Mark entrar antes de colocar o pinheiro no lugar. Depois, abriu a porta da cozinha.
- Posso coloc-la na sala?
Annebelle tirava uma assadeira de carne do forno, e o recebeu com um lindo sorriso.
- J fiz um lugar para ela, Raymond. Entre.
Erguendo o vaso, Raymond o carregou at a sala de estar. Amanda dormia no carrinho ao lado da cadeira de balano. Logo avistou o lugar que Annebelle escolhera, prximo da janela. Parecia ocupar pelo menos metade do ambiente.
- Adivinhei que Mark iria querer uma rvore bem grande esse ano.
- E tambm perfeita - afirmou Raymond.
Dando um passo para trs, Annebelle se ps a examin-la. Olhou-a de cima a baixo, e estava prestes a fazer algum comentrio quando viu a cala de Raymond rasgada.
- Por Deus, o que aconteceu em sua perna?!
Foi ento que avistou os vrios rasgos no tecido, bem como manchas de sangue.
- So s alguns arranhes, Annebelle. Tive um probleminha com o arame farpado, mas no foi nada de mais.
-  melhor cuidarmos bem disso. Tomou vacina antitetnica nos ltimos tempos?
- No vero passado.
- Ainda bem. Vamos at o banheiro para eu limpar o ferimento.
- Annebelle, no precisa...
-  melhor deixar a mame cuidar disso a para no infeccionar - advertiu Mark, e Raymond imaginou que ele escutava vrias vezes as mesmas palavras de Annebelle.
- No quero atrasar o jantar.
- Ele pode esperar um pouco. Mark, por que no sobe e toma um banho rpido? Enquanto isso, cuidarei do machucado de Raymond.
Em outras circunstncias, ele teria dado um significado diferente quilo tudo. Mas agora no era o caso. Assim, seguiu Annebelle at o banheiro e, uma vez l dentro, percebeu como era pequeno para os dois.
- Acho melhor tirar a cala, Raymond.
- Annebelle...
Enrubescida, ela abriu o armrio para pegar os medicamentos.
- Terminaremos antes de voc perceber. Tem que dar um bom exemplo para Mark, ouviu?
"Como se eu soubesse que bom exemplo estarei dando ao garoto com a cala arriada..."
- Prefiro cuidar sozinho do ferimento.
- No ser muito fcil, Raymond. Deixe-me ajud-lo.
O complicado seria controlar seus nervos diante do desejo que j sentia. Quando Raymond levou a mo ao cinto, Annebelle ainda mexia no armrio, e ficava cada vez mais vermelha. Melhor seria se fossem depressa. Decidido, Raymond baixou o jeans, mas no o tirou, pois ainda estava de botas.
- Ah, Raymond, deve estar doendo muito! - Ela estudava os cortes cheios de sangue na parte posterior da coxa.
- No, no est.
Annebelle pegou uma gaze e umedeceu-a com um lquido.
- Vou passar um anti-sptico para limpar tudo antes de aplicar a pomada.
- Est bem. Vamos acabar logo com isso - pediu, mal-humorado.
Embora Annebelle fosse rpida e eficiente como uma enfermeira, Raymond tinha plena conscincia do toque dos dedos delicados em sua pele. Podia imagin-los em outros lugares... os dois deitados na cama...
Ao perceber o rumo de seus devaneios, tentou cont-los, o que era to difcil quanto manter-se distante de Annebelle.
A luz iluminava-lhe os cabelos sedosos. Se os tocasse, sabia que no conseguiria parar .
Quando ela comeou a espalhar a pomada nos cortes, Raymond fez de tudo para controlar a vontade de gemer. O toque macio em sua coxa o estava enlouquecendo. No podia se virar de jeito nenhum. Se Annebelle visse...
Teria de agir rpido e vestir a cala para tentar esconder o que estava acontecendo.
- Por que no tira o jeans para eu lav-la? - sugeriu ela, tendo terminado antes que Raymond pudesse tomar alguma atitude. - Depois, tentarei remend-la.
- No precisa.
- E quando voc precisar de cala limpa?
A ltima coisa que queria era ficar discutindo com Annebelle naquele estado. Sua excitao era evidente, e no havia como escond-la.
Quando se deu conta do que acontecia, Annebelle pegou o material que usara e o guardou de volta, com as faces em fogo.
Raymond se recomps e aproximou-se dela, tocando-a nos ombros.
- No fique com vergonha, Annebelle. Acho que meus sentimentos no so nenhuma novidade.
Alguns instantes depois, ela encontrou o olhar de Raymond no reflexo espelho.
- Estou envergonhadssima. Deveria ter percebido que...
Virando-a, ele tirou-lhe uma mecha do rosto.
- Independente de minhas reaes, voc sabe que no tem nada a temer, no ?
- No tenho medo de voc, Raymond.
Havia, porm, algo na entonao dela que o fez imaginar como seria o relacionamento sexual de Annebelle com o marido.
- Mas...
- As necessidades do homem so apenas fsicas. J as da mulher so um pouco mais complicadas.
- No vou tentar convenc-la de que minha reao no foi fsica, mas no  s isso. Voc me proporcionou coisas que jamais tive em minha vida, Annebelle. As tradies, as datas especiais... E gostei muito. O que existe entre ns no  apenas desejo. Diga-me, do que tem tanto medo?
- Eu no temo nada. - E ergueu o queixo.
- Ah, ? Se  assim, por que tanto cuidado?
- Sou cautelosa, e preciso ser assim. Quando voc for embora, minha vida voltar a ser a mesma de antes. Tenho dois filhos para criar e um rancho para cuidar, apesar de no saber at quando conseguirei fazer tudo sozinha. Beij-lo  muito gostoso, mas no posso me desviar de meus propsitos.
Para Raymond, a volpia que sentia por Annebelle, a tranqilidade que sua presena lhe proporcionava, era muito mais do que gostoso. Porm, Annebelle tinha razo em estar preocupada com o futuro.
Se Raymond no tivesse um irmo para encontrar, poderia ficar mais... Apesar de que ela no lhe pedira para ficar, nem lhe dera indcios de que tudo seria diferente, caso isso acontecesse.
Quando escutou passos no corredor, Raymond afastou-se dela.
Mark apareceu  soleira.
- J tomei banho e Amanda est chorando, mame. Vamos comer agora? 
Annebelle parecia perturbada ao sair do banheiro. 
- Pode tentar distrair sua irm enquanto sirvo o jantar, querido? Depois, irei amament-la enquanto vocs dois comem.
- Tudo bem. A perna de Raymond vai ficar boa?
- Sim, companheiro - respondeu ele.
Queria poder dizer o mesmo sobre o vazio que sentia quando pensava em partir. E sobre os sentimentos que nutria por Annebelle e seus filhos. No entanto, sua filosofia de vida sempre fora "viva um dia de cada vez", e no via motivos para mud-la agora.


CAPTULO VII

Caixas e caixas com enfeites de Natal estavam espalhadas pelo cho da sala.
Annebelle segurava o filho em cima de um banco para que ele pudesse pendurar um pequeno sino no galho. Ao olhar para o lado e ver que Raymond examinava uma bola azul com o nome de Mark gravado, ela sentiu as faces quentes de novo. Nunca experimentara o mesmo por homem algum. O corao disparado e as pernas bambas eram novidade para Annebelle.
E, com a proximidade, sentia o calor de seu corpo, seu perfume, suas pernas, seu...
Quando notara a excitao dele no banheiro, tambm se excitara, e ficou imaginando o que aconteceria se deixasse seus desejos falarem mais alto. Dali a algumas semanas j poderia...
Bem, dali a algumas semanas Raymond j no estaria mais naquela casa, na certa.
- Posso colocar a estrela na ponta do pinheiro antes de ir para a cama, mame?
Mesmo quando cortavam uma rvore pequena eles a enfeitavam com a estrela guia.
- Claro que sim, mas o banco no ser alto o suficiente.
- Eu o ergo - ofereceu-se Raymond.
- A estrela est na caixa em cima do sof. - E Annebelle afastou-se.
Mark pulou do banco e saiu correndo para peg-la.
- Foi voc quem pintou essa bola, Annebelle? - Raymond indicou a bola com o nome e a data de nascimento de Mark, alm de um anjinho.
- Sim, no primeiro Natal da vida dele.
- Voc sabe mesmo como tornar os momentos especiais.
A voz dele, baixa e profunda, causou-lhe um arrepio delicioso.
- O que quer dizer, Raymond?
- Mark se acha especial toda vez que olha para essa bola. Aposto como voc faz um bolo de aniversrio para ele todos os anos, no?
Ela assentiu, imaginando que Raymond nunca comemorara seu aniversrio.
- Quando faz anos, Raymond?
- Dia oito de abril.
Nessa data, Raymond, decerto, estaria bem longe.
- Alguns dos enfeites so muito velhos. - Ele resolveu mudar de assunto, apontando para um floco de neve feito de croch pendurado no pinheiro.
- Muitos deles eu pendurava na rvore de Natal quando criana. Mark gosta de saber a histria deles, a origem de cada um. - Annebelle mostrou um boneco de metal. - Papai comprou-o quando foi visitar um amigo, no Wyoming.
Depois, tocou uma pequena igreja de madeira.
- Este ganhei de Dallas, quando estvamos no colegial. Cada um tem sua histria.
Annebelle ficou pensando o que estaria se passando pela cabea de Raymond, pois sua expresso era bastante sria.
- Nunca imaginei que as rvores de Natal so cheias de recordaes. Deve ser maravilhoso ter tantas lembranas. Elas devem fazer com que nos sintamos unidos a muita gente querida.
"Voc tambm poderia se sentir assim", pensou ela.
Mas, antes que Annebelle pudesse verbalizar o que lhe ia no ntimo, Mark apareceu com a estrela.
- Aqui est!
Raymond levantou-o para que conseguisse alcanar a ponta do pinheiro e ajeitar o arranjo. Era dourada e tinha algumas manchas, mas Mark a olhava como se fosse a mais bonita da face da terra.
- No ficou linda l em cima, mame? - perguntou ele, j no cho. - Ns escolhemos a melhor.
- Com certeza, filho. - Annebelle fitou Raymond, que tornara possvel tanta alegria a Mark.
Sua simples presena j alegrava o Natal do garotinho, e, sendo sincera, o dela tambm.
- Vamos colocar as luzes, mame?
- Est bem, querido, mas depois voc vai vestir seu pijama.
- Podemos cantar uma msica natalina?
Annebelle virou-se para Raymond.
- Ns sempre cantamos quando a rvore est pronta.
- Mais uma tradio?
- Sim.
Assim que ele acendeu as luzes, Annebelle abraou Mark.
- Que msica prefere, amor?
- Noite feliz - disse ele, sem hesitar.
Ento, Annebelle comeou a cantar e o garoto a acompanhou, seguido por Raymond. Ao terminarem, os trs ficaram em silncio, saboreando o momento, que certamente duraria para sempre.
O telefone tocou, quebrando a magia que os envolvia. Annebelle pegou a bab eletrnica e foi atender.
- Mark, v para cima. Subirei assim que desligar.

A noite fora agitada para Raymond. Depois de despedir-se de Mark, ele acompanhou Annebelle at a cozinha, a caminho de seu quarto.
Nunca estivera envolvido em tradies familiares antes. Jamais cortara um pinheiro ou observara a alegria do Natal nos olhos de uma criana.
Quando acenderam as luzes, instantes antes, ele no conseguiu evitar o n que se formou em sua garganta. E, ao cantar, a desordem de sentimentos que o consumia o fez perceber que talvez j tivesse ficado muito tempo naquela fazenda.
O que estava fazendo ali se no tinha nenhum vnculo com aquelas pessoas? E por que s vezes agia como se fosse um membro da famlia?
Teria ido direto para o dormitrio, ordenar seus pensamentos, mas escutou Annebelle ao telefone:
- Ol, Dallas. J chegou em casa para o Natal?
De repente, Raymond ficou com vontade de tomar um copo de leite, e demoraria o quanto fosse necessrio para peg-lo.
Escutando com discrio a conversa, descobriu que Dallas ainda estava na faculdade e, mesmo sem saber o que ele dizia, era evidente que queria saber se estava tudo bem.
- Sim, ele ainda est aqui - respondeu Annebelle, olhando para Raymond. - Passar o Natal conosco.
Alguns minutos depois, enquanto ele ainda bebia seu copo de leite, Annebelle desligou o aparelho.
- Dallas queria algo em especial? - Raymond indagou, mostrando-se o mais casual possvel.
- No. S queria saber se estava tudo em ordem. Os vizinhos cuidam um dos outros por aqui. No era assim nas outras em fazendas que voc trabalhou?
- Nelas eu morava no alojamento dos empregados e no sabia o que acontecia na vida dos meus patres. Apenas trabalhava. Annebelle, no acha que Dallas est um pouco longe para querer saber se voc precisa de alguma coisa?
- A distncia no interfere na amizade. Depois que Pete faleceu, Dallas sempre me liga para saber se est tudo bem.
O olhares deles se encontraram.
- Como est sua perna, Raymond?
- Bem.
- No me diria se no estivesse, no ?
- No quero estragar minha imagem de duro - brincou.
O tom jovial fez com que Annebelle se aproximasse mais.
- Tem um bom corao, Raymond. Este Natal ser inesquecvel para Mark.
- No s para ele, Annebelle. Voc e seus filhos esto tornando essa data muito importante para mim. Nunca tive vontade de comemor-la antes. - Fez uma breve pausa. - Estava dando uma olhada naquele tren que comprou. J que descartou a hiptese de eu dar uma bicicleta ou um trem eltrico para Mark, que tal se o consertasse? Poderamos dar o presente em nome dos dois.
Annebelle fingiu pensar no assunto.
- S se eu puder jogar bola com voc e com Mark depois.
Seria bem divertido v-la jogando futebol, decidiu Raymond.
- Combinado - concordou, sorridente.
E ento os dois se entreolharam de novo, sentindo a eletricidade que os aproximava, a ligao cada vez mais forte, mesmo que fizessem de tudo para evit-la.
Raymond queria tanto beij-la, tom-la nos braos... Mas acreditava que no conseguiria se contentar apenas com beijos. E no sabia se deveria continuar naquela casa depois do Natal.
Annebelle deu um passo para trs.
- Acho melhor eu ir me deitar.
- Se quiser, fico com a bab eletrnica, enquanto voc conta uma histria para Mark. Caso Amanda acorde antes de voc terminar, poderei distra-la por alguns minutos. - Raymond adorava peg-la no colo, porm, no costumava faz-lo para no se habituar.
Quando Annebelle passou-lhe o aparelho, os dedos deles se esbarraram, e nenhum dos dois se afastou.
Raymond encontrou nos olhos castanhos a mesma emoo que sentia, mas preferiu atribu-Ia  alegria das festividades natalinas.
Ao ver-se sozinho na sala, ele ficou pensando em sua verdadeira famlia, no irmo que ainda no encontrara e na diferena que Hunter Coleburn viria a fazer.

Era vspera de Natal. Raymond acabara de voltar do curral quando viu Mark correndo em sua direo.
- Rpido, Raymond! - disse ele, quase sem flego. - A mame falou que  um telefonema importante para voc!
Apenas uma pessoa tinha o nmero de seu telefone na Fazenda Double Blaze: John Morgan, o pai adotivo de Hunter Coleburn.
Amarrando depressa o cavalo na cerca do curral, Raymond saiu correndo para a casa, e o garoto foi atrs, tentando alcan-lo.
-  Hunter Coleburn - disse Annebelle, assim que o viu.
O corao dele disparou.
- Vamos dar um pouco de privacidade para Raymond, querido - ela sugeriu, abraando o pequeno e indo para a sala.
Raymond esperou ficar a ss.
- Al? 
- Raymond Coleburn?
- Sim. 
- Aqui quem fala  Hunter Coleburn. Acabei de voltar para meu escritrio em Londres e encontrei uma mensagem de meus pais. Depois de conversarmos, eles me enviaram um fax com sua carta e a fotografia que voc mandou. A no ser pelo detalhe de meus cabelos serem pretos, e meu pai falou que na foto os seus so castanhos, poderamos passar um pelo outro. Somos gmeos, Raymond.
Com a pulsao disparada, ele no sabia o que falar, e tambm no imaginava o que Hunter pensava sobre encontrar um irmo que nem sabia existir.
- O que achou dessa histria toda, Hunter?
Houve um breve silncio do outro lado da linha.
- Foi um grande choque. Eu no sabia que tinha uma famlia de verdade. Bem...  um assunto meio delicado para se tratar por telefone, e s voltarei aos Estados Unidos dentro de trs semanas. Gostaria de encontr-lo, ento. Voc poderia ir at Denver, ou eu at Montana.
- Vamos combinar melhor quando voc chegar ao pas - props Raymond. - Ainda no sei se estarei aqui, mas lhe telefonarei, caso no esteja. Pode me dar um nmero para contato?
Raymond fez a anotao em um pedao de papel.
- Existe algum motivo para voc continuar usando o sobrenome Coleburn, Hunter?
- Foi meu primeiro sobrenome at os vinte e um, e depois decidi usar apenas ele.
Raymond suspeitava que havia algo mais, porm, precisavam de mais do que cinco minutos para se conhecerem melhor. Talvez demorassem toda uma vida.
- Meu pai falou que voc trabalha em uma fazenda em Montana, Raymond.  isso o que faz?
- Isso tambm. J trabalhei em construtoras, mas prefiro o contato com a natureza. No paro muito tempo no mesmo lugar. E voc?
- Minha especialidade  Direito Internacional, ento viajo bastante. Pelo visto ns dois temos a mesma necessidade de... vagar.
Mais alguns momentos de silncio, como se eles no soubessem por onde comear.
- Fiquei muito contente com seu telefonema, Hunter. No achei que fosse encontr-lo.
- Que bom que nos encontramos! Ligarei para voc assim,que souber de mais detalhes sobre meu retorno.
- timo. E eu lhe informarei onde vou estar. Desejo-lhe um feliz Natal.
- J comeou bem - respondeu Hunter, com um trao de emoo na voz. - Feliz Natal para voc tambm, meu irmo. Cuide-se. At mais.
Quando Raymond colocou o fone no gancho, sua garganta estava fechada.
Escutou Mark subindo as escadas, e Annebelle apareceu na cozinha em seguida, com Amanda no colo.
- Quer conversar, Raymond?
Ele nunca tivera com quem compartilhar seus problemas antes, mas tambm no achara necessrio. Um homem tinha de lidar com suas dificuldades. Um homem seguia seu bom senso e tinha de encontrar as prprias respostas.
Entretanto, Hunter Coleburn no era um problema, e no havia respostas para buscar. Pelo menos por enquanto.
- Tenho um irmo gmeo, Annebelle. O pai de Hunter enviou-lhe um fax com minha foto, e ele disse que somos idnticos. A nica diferena  a cor dos cabelos.
- Como  descobrir que se tem um irmo?
- Estranho. Quero dizer, acho que no esperava encontr-lo. Mas foi como falar com um desconhecido.
- Vocs so desconhecidos. E sero at passarem um tempo juntos. Pretendem se ver pessoalmente?
- Com certeza, mas Hunter est em Londres a negcios e s voltar daqui a trs semanas, em meados de janeiro. Assim, terei de esperar.
- Como ele ?
- Reservado e educado. Pelo jeito, no temos muito em comum.
- Vocs tm o mesmo sangue, Raymond. Isso  muito importante.
Amanda comeou a resmungar no colo da me, e Raymond pegou-a, procurando uma distrao, pensando em sua ligao com o irmo.
Em seguida, fitou Annebelle, admitindo que sua afinidade com ela aumentava cada vez mais. Desde o dia em que haviam enfeitado o pinheiro, o relacionamento deles se mostrava mais descontrado. Ainda tentavam controlar a qumica, mas ela no se afastava diante de qualquer toque acidental, e ele aproveitava cada oportunidade para estar por perto. Tinham pintado o tren de Mark juntos, certa noite.
- Gostaria de me acompanhar  igreja, mais tarde? - Annebelle convidou-o.
- E Amanda?
- Marvis disse que ficaria com as crianas se... se quisssemos ir.
Raymond achou pouco provvel a vizinha ter se oferecido para ser bab, porm, preferiu no entrar em maiores detalhes.
- Ser um grande prazer acompanh-la. Mas Mark no ficar sentido se no for junto?
- Ele estar dormindo at l. O culto comea s dez e meia. Por volta da meia-noite, estaremos de volta.
De repente, Raymond pensou na igreja, nos vizinhos e nas roupas que trouxera.
- Irei at a cidade hoje  tarde, Annebelle. Quer alguma coisa?
- No, obrigada. Tenho tudo de que preciso.
Olhando para ela, Raymond pensou que tambm tinha.

Colocar Mark para dormir na vspera de Natal foi mais difcil do que o esperado. O garoto estava muito excitado com os acontecimentos, concluiu Raymond, indo ao seu quarto se trocar para ir para a igreja.
Annebelle j amamentara Amanda, e a pequena dormiria por algumas horas.
Raymond tinha acabado de calar as botas quando escutou vozes na cozinha. Imaginou que Marvis tivesse chegado. Tirou seu novo palet caramelo do armrio e vestiu-o. Depois, seguiu para a cozinha.
Quando as duas mulheres o viram, pararam de falar e ficaram s olhando. Annebelle o analisou de cima abaixo, e era evidente que estava sem palavras. Ser que parecia to diferente do normal apenas por usar gravata e uma cala mais elegante do que o costumeiro jeans?
Annebelle estava linda com um vestido longo de l de gola alta. 
- No fiz a barba direito? - perguntou ele, divertindo-se. 
Annebelle enrubesceu, e Marvis caiu na risada.
- As mulheres no conseguem deixar de admirar um homem todo arrumado para o Natal - comentou ela, sorrindo.
-  verdade, Annebelle? - provocou-a Raymond.
- Sim... Voc nem parece o mesmo! 
- Agradei ou no?
- Quase no o reconheci.
- Sou o mesmo homem por baixo destas roupas.
Ela ficou ainda mais vermelha. 
- Acho melhor irmos embora para no nos atrasarmos.
Raymond decidiu deix-la mudar de assunto. 
- Estou pronto - afirmou, pegando a capa de Annebelle de cima da cadeira.
Quando ela se aproximou para vesti-la, Raymond sentiu o delicioso aroma floral. Em seguida, ajeitou-lhe a gola, tocando ligeiramente a nuca, como que sem querer. Annebelle olhou para trs, e ele sentiu o corao disparar.

Durante quase todo o caminho para a igreja, os dois permaneceram: quietos, at Annebelle resolver quebrar o silncio:
- Voc est muito bonito, hoje.
- Eu me lavei direitinho, no?
- Raymond...
- No consigo deixar de provoc-la. Voc precisava ter visto sua expresso de surpresa. No sabia que havia tanta diferena entre usar uma camisa de flanela e um palet.
- No  assim.
- O que  ento?
- Achei que estvamos nos conhecendo e, quando o vi to diferente, parei para pensar se o conheo mesmo.
- Conhece-me, sim, Annebelle. O fato de eu ter comprado alguns trajes no significa que me comportarei de outra forma. Voc no age diferente quando usa batom, certo?
Annebelle passara um brilho rosado nos lbio, ressaltando-os. 
- Na verdade, sim. Vestir um traje elegante e me pintar faz com que me sinta mais... mulher. 
- V ou me lembrar disso - respondeu Raymond com o pulso acelerado. 
Ao chegarem  igreja, o pequeno estacionamento j estava lotado.
Raymond e Annebelle entraram e conseguiram um lugar no fundo, ao lado de uma famlia. Quando Raymond deixou-a passar primeiro, sentiu alguns olhares curiosos. Acomodou-se ao lado dela, e logo viu Dallas O'Neill sozinho, isto , sem a companhia de uma garota.
Fazia anos que Raymond no ia a um culto. A ltima vez, pelo que se recordava, fora na Pscoa, cinco anos atrs. Acompanhara seus colegas, no rancho onde trabalhava. Mas agora era diferente. Era uma ocasio mais especial, pois tinha a companhia de uma mulher encantadora.
Sentiu uma grande emoo quando todos comearam a cantar, algo que estava adormecido em seu ntimo desde criana.
Pequenas rosas brancas decoravam o altar. Raymond foi percebendo o senso de comunidade, de um conhecer o outro, de estarem contentes por poderem se encontrar em uma ocasio to especial.
As pessoas leram trechos para os doentes, cumprimentaram os que tinham se casado e abenoaram os bebs recm-nascidos. O culto comeou em seguida.
Durante todo o tempo Annebelle ficou com as mos entrelaadas no colo. Olhou para Raymond, e eles aproveitaram aquele momento nico por alguns segundos.
- Estou muito contente por voc ter me convidado para vir  igreja, Annebelle.
Ao receber apenas um sorriso como resposta, Raymond ficou imaginando em que ela pensava. Estaria se lembrando de outros Natais, talvez ao lado do marido? No fazia idia de como era Pete Lawrence, e s saberia quando, e se, ela estivesse pronta para lhe contar.
Aps os ritos finais, o pastor passou a cumprimentar os membros de sua congregao. Mas, antes de conseguirem chegar at ele, Dallas tocou o ombro de Annebelle.
Assim que Dallas a abraou, Annebelle notou que a expresso de Raymond se modificou. "Ele est mesmo com cime!", pensou, com certa satisfao.
Quando vira Raymond de palet e gravata, Annebelle sentiu um forte calafrio percorrer-lhe o corpo. At de camisa de flanela ou com a barba por fazer, ele era o homem mais bonito do mundo. Tudo a respeito dele o tornava especial, e a atrao aumentava a cada dia. Mesmo sentados na igreja, Annebelle teve vontade de segurar-lhe a mo, de sentir seu toque gentil, sua proximidade.
- Feliz Natal, Dallas - disse ela, soltando-se.
- Feliz Natal para voc tambm. - Dallas olhou para Raymond. - Coleburn...
- Feliz Natal, O'Neill - respondeu ele, sem o menor entusiasmo.
- A mame falou que iria convid-la para o jantar de Natal amanh. Voc ir?
Annebelle se esquecera completamente do convite.
- Ainda no conversei com Raymond. Falei a Marvis que lhe daria a resposta quando voltasse do culto.
- Bem, espero que possa ir. Voc vai  comemorao de Ano-Novo dos Diamond?
Annebelle resolveu incluir Raymond na conversa, e dirigiu-se a ele:
- Um dos fazendeiros, Amos Diamond, cria quartos-de-milha. Todos os anos ele faz uma festa na rea de treinamento de se rancho.  um grande evento, com gente vindo de todas as partes.
- Parece-me interessante... - comentou Raymond, sem grande interesse.
Aps mais alguns minutos de conversa, Dallas beijou Annebelle no rosto e desejou-lhe boa-noite. Depois apertou a mo do pastor e se foi.
Raymond se manteve calado ao ser apresentado ao pastor por Annebelle. A quietude continuou, ao sarem da igreja.
- O que h de errado? - perguntou Annebelle, preocupada.
Parado diante do carro, Raymond tirou o chapu.
- No se sinta na obrigao de no ir ao jantar de amanh por minha causa.
Annebelle sabia quantos Natais Raymond passara sozinho. No permitiria que o mesmo acontecesse tambm esse ano. E no se tratava de caridade, queria estar com ele.
- Voc tambm foi convidado.
- Por educao.
- No  verdade, e eu s irei se voc for comigo. Gostaria muito de passar o Natal a seu lado.
- Voc tem um grande corao, Annebelle, mas no quero sua compaixo.
- Acha que se trata disso? - Ela o encarou.
No houve resposta. Annebelle meneou a cabea.
- Podemos fazer o que voc quiser, Raymond. Ou jantamos em casa ou com os O'Neill. Para mim, tanto faz.
Ele pareceu se acalmar um pouco.
- Sabe o que mais, Annebelle? Vou com voc a esse jantar dos O'Neill se pudermos ir juntos  comemorao de Ano-Novo, mas como um encontro.
- Voc pretende ficar?
- Andei pensando um pouco. Mark me pediu para acompanh-lo ao festival da escola na primeira semana do ano. Voc ainda precisa de ajuda. Desse modo, acho melhor ficar at Hunter retornar ao pas. Aps tudo isso, tornarei a pensar no assunto.
Annebelle sentiu o corao se iluminar em seu peito ao saber que Raymond ainda no partiria, mas o bom senso a advertia a no se animar tanto. Mesmo assim, a idia do encontro a excitava.
- Ser um prazer ter sua companhia na festa dos Diamond.
- Ento, temos um encontro marcado  brincou Raymond, com as pupilas brilhando.
Uma noite sozinha com ele... Annebelle notou que o relacionamento deles atingira outro patamar. A constatao a fez tremer por dentro, e no sabia se era antecipao ou medo.
No caminho para casa, Raymond sintonizou em uma rdio que tocava canes de Natal, e o clima natalino os envolveu.
Deixou Annebelle na porta de casa e foi estacionar. Ela aceitava o convite de Marvis para o jantar de Natal quando ele entrou.
- Estamos contentes por saber que teremos sua companhia amanh. - Marvis abraou Annebelle. Ento, apertou a mo de Raymond. - Acho bom voc gostar de tnder, pois  o que comeremos.
-  o meu prato preferido.
Eles se despediram, e Raymond acompanhou Marvis at o automvel.
Quando voltou, disse a Annebelle:
- Sei que  tarde, mas gostaria de lhe dar algo esta noite.
- Raymond, voc no precisa...
-  Natal, Annebelle. Sente-se no sof e me espere. Volto em um minuto.
Em vez de obedec-lo, ela foi at o pinheiro enfeitado e pegou um dos pacotes. Ento, acomodou-se, verificou a bab eletrnica, e estava colocando o presente na mesinha de centro quando Raymond apareceu.
Ele tirara a jaqueta, e seus ombros pareciam mais largos com a camisa branca. O sorriso em seus lbios dava-lhe a aparncia de um garoto.
- Para voc, Annebelle. - E entregou-lhe um embrulho vermelho com uma fita dourada. Em seguida, sentou-se ao lado dela.
Depois de desamarrar a fita, Annebelle deparou-se com uma caixa de sapatos.
- Desculpe-me, mas foi o nico pacote que consegui achar.
Quando ergueu a tampa, Annebelle ficou encantada.
- Raymond,  linda! - elogiou, pegando a rvore em miniatura. - Foi voc que fez?
- Sim. Fao esculturas em madeiras desde criana, para me distrair.  uma excelente forma de meditar.
Ao examin-la mais de perto, os olhos de Annebelle se encheram de lgrimas.
- Obrigada.  o presente mais lindo que j recebi em toda minha vida.
Sem pensar duas vezes, Annebelle virou o rosto e beijou-lhe a face. Era um beijo diferente dos outros, mas tambm especial. E percebeu que Raymond achava o mesmo, quando o encarou.
Respirando fundo, ela pegou o pacote em cima da mesa e entregou a ele.
Raymond o abriu bem depressa.
- Que belo par de meias, Annebelle! Meus ps ficaro quentinhos. - S ento ele viu o livro. Era um compndio de astronomia.
- Imaginei que voc fosse gostar...
- Ah, Annebelle, eu adorei! O que eu tinha quando menino se perdeu em uma de minhas mudanas. Agradeo muito, do fundo do corao. Quem sabe um dia no vamos juntos olhar as estrelas?
Raymond pegou a rvore e colocou-a na mesa junto, com seus presentes, agindo com segurana. O mesmo aconteceu quando encostou seus lbios nos de Annebelle, antecipando um beijo apaixonado.
Afastou-se um pouco para estudar-lhe o semblante, depois tornou a beij-la, de um modo quente, envolvente, cheio de desejo. 
Annebelle perdeu-se por completo na sensualidade daqueles lbios e do cheiro dele, mas foi interrompida pelos sons da bab eletrnica.
-  Amanda. Preciso amament-la.
Raymond assentiu. Ela pegou suas coisas e subiu as escadas.
- Annebelle, nada vai nos atrapalhar qualquer noite dessas...
A fora de seus sentimentos por aquele homem quase a fizeram perder o equilbrio. Por isso, teve de se segurar no corrimo.
- Boa noite. At amanh - foi tudo o que conseguiu dizer antes de seguir depressa para o refgio de sua sute.
Estava apaixonada por Raymond Coleburn. O que faria quando ele partisse?


CAPTULO VIII

Flocos de neve grandes e fofos voavam diante de Annebelle e Raymond quando eles entraram na rea de treinamento onde acontecia a festa de ano-novo na fazenda da famlia Diamond.
O Natal superara as expectativas dele, comeando pelo olhar encantado de Mark ao ver seus presentes, as exclamaes de alegria ao abrir cada um.
Annebelle no parava de lhe agradecer pela escultura, e a colocara na mesa-de-cabeceira ao lado da cama. Talvez tivesse algum significado especial... Talvez ele estivesse comeando a significar algo na vida dela.
O pensamento o assustou. Queria que isso acontecesse? No conseguia ficar muito tempo em um mesmo lugar. No sabia ser marido ou pai, ou o tipo de homem que uma mulher precisa a seu lado.
O engraado era que sua costumeira impacincia no o importunara desde que chegara  Double Blaze. Mas pensaria nisso mais tarde.
Raymond imaginou se encontraria Dallas O'Neill na comemorao. Com certeza, sim. A noite de Natal teria sido perfeita se ele no estivesse presente. Mas fora educado, e at mantivera um dilogo com seu suposto rival, para agradar Annebelle.
A decorao do lugar estava linda. Mesas e cadeiras haviam sido dispostas na arena. Montes de feno empilhados serviam de assentos, e tambm para criar um clima. Em uma das extremidades fora montado um palco, e uma banda tocava. Uma mulher cantava uma balada country. Vasos com flores brancas enfeitavam as toalhas de mesa, alm de velas em castiais de madeira.
-  um evento maravilhoso - disse ele prximo  orelha de Annebelle.
Quando ela virou-se para olh-lo, suas faces quase se tocaram.
- Amos Diamond sabe como organizar uma festa. Ele no  muito querido, mas as pessoas o respeitam. Criadores de todo o pas vm at aqui comprar seus cavalos e trein-los.
- Quer pendurar seu casaco? - perguntou Raymond, vendo os cabides na entrada da arena. - Ou prefere segur-lo?
- Acho melhor pendur-lo, para no me atrapalhar.
Ao ajud-la atirar a despir o agasalho, Raymond tocou-lhe os ombros, e Annebelle sentiu um arrepio.
Era assim desde o Natal: uma onda de eletricidade os envolvia o tempo todo.
Raymond pendurou seu palet tambm, ficando apenas com a camisa branca e a gravata. Alegrou-se por ter se vestido assim, pois a expresso de Annebelle era de aprovao.
- Voc est muito bonita. - Raymond apreciava a forma como Annebelle prendera os cabelos em um coque solto, assim como a cor de seu batom.
- Obrigada.
- Por nada. - Raymond colocou a mo em volta da cintura dela, e entraram na festa.
Annebelle no se afastou, e ele sentia o calor que emanava de seu corpo atravs do tecido da camisa.
Acomodaram-se a uma mesa com alguns conhecidos de Annebelle. Diferente das senhoras na igreja, no se mostravam curiosos do relacionamento deles. Queriam apenas passar uma gostosa noite de rveillon.
Aos poucos, os casais foram se levantando e indo para a pista de dana, pois comeara a tocar uma tpica msica country.
- Gosta de danar, Annebelle?
- Sim, desde pequena. - Ela sorriu.
Raymond ergueu-se e estendeu-lhe a mo.
Durante a hora seguinte, ele conheceu um outro lado de Annebelle, alegre e despreocupado. 
Em meio s danas, ela conversava com os outros casais como se no tivesse nenhuma responsabilidade maior no mundo. Era to bom v-la daquele modo...
A banda, ento, fez uma pausa, e eles foram at a mesa para comer e beber. Entretanto, no permaneceram ali por muito tempo, pois logo comeou a tocar uma msica lenta, e Raymond queria t-la nos braos.
- Voc tambm dana bem as lentas?
- Ter de descobrir sozinho - respondeu Annebelle com um sorriso malicioso. 
Annebelle era belssima, sensual e meiga, Raymond concluiu, ao lev-la para o meio da pista e se puseram a danar. 
Segurando-a bem perto, colocou a mo dela em seu peito para que pudesse sentir seus batimentos cardacos. O aroma do perfume floral era mais inebriante do que um usque velho, e seu desejo aumentava a cada momento. Era algo mais do que fsico, e essa constatao lhe causou certa estranheza. Tinha a ver com as tradies, com famlia e com o vnculo a um determinado lugar... e pessoa.
Durante anos e anos Raymond se considerara um errante, e gostava de ser assim. Mas aquela proximidade de Annebelle, a intimidade com seus filhos comeavam a lhe mostrar que j no era mais bem assim.
Acariciou-lhe as costas e quando Annebelle levantou os olhos o tempo pareceu parar. Raymond inclinou a cabea, ciente de que os vizinhos poderiam estar olhando. Em vez de beij-la, encostou o rosto contra o dela e tocou-lhe a testa com os lbios, sentindo a maciez de sua pele. De certa forma era mais sensual. Mais desconcertante.
Raymond apertou-lhe mais a cintura, e Annebelle estreitou mais os braos ao redor do pescoo dele. Era como se estivessem flutuando, e no danando. A proximidade parecia necessria, uma parte do que estava se formando entre os dois...
Raymond quase se esquecera das outras pessoas e dos falatrios, tamanha a vontade de beij-la.
A msica, as vozes e o cheiro de feno, comida e flores se misturavam como uma realidade nebulosa diante dos olhos de Annebelle.
Naquele momento, Raymond preenchia seu mundo com um poder e fora e uma proteo que lhe proporcionavam uma excelente sensao de bem-estar.
Nunca quisera ser protegida, mas com ele era diferente. A tenso em seu ventre lhe dizia que aquele homem poderia mostrar-lhe sensaes jamais vividas antes.
Os olhares, os toques, o perfume, enfim, tudo o que o envolvia incitavam-lhe uma necessidade bsica que sempre temera. Mas naquele momento queria explor-la e, a julgar pela maneira como a abraava, Raymond sentia o mesmo. Sentiu o roar dos lbios em sua testa, acompanhado de um arrepio.
E, de repente, Raymond se afastou.
Annebelle olhou para cima e logo entendeu o porqu. Dallas estava parado ao lado deles, srio e determinado.
- Posso interromper?
- Depende de Annebelle - afirmou Raymond.
No queria sair dos braos dele, mas no podia fazer essa desfeita com seu amigo de longa data. E tambm teria a noite inteira na companhia de Raymond. Ele, ento, a soltou, e Annebelle achou que poderia ter tomado a deciso errada, a julgar pela expresso dele.
- Depois danamos mais - disse ela, tocando-lhe o ombro.
- Estarei esperando. - Raymond resolveu aplacar os nimos.
-  srio o que est acontecendo entre vocs? - Dallas indagou, sem rodeios.
- O que quer dizer com "srio"?
- Por favor, Annebelle, no se faa de desentendida. Est apaixonada por Coleburn?
Annebelle estudou o amigo to querido por alguns momentos. Os olhos verdes, os cabelos castanhos, os traos perfeitos.
- Faz anos que somos amigos, Dallas, mas no me sinto  vontade discutindo esse assunto com voc.
- J entendi tudo. De nada adiantar eu lhe dizer que sair machucada dessa histria, no ?
- Sei muito bem onde estou pisando, e tambm que Raymond logo ir embora, se  o que quer dizer.
- No achei que voc fosse esse tipo de mulher, Annebelle.
Ela parou de danar.
- A que tipo se refere?
- Deixe para l...
- Dessas que dormem com um homem e depois fingem que nada aconteceu? - Annebelle no se importava em conter a irritao. - Pelo visto, s os homens gostam dessa idia. No estou vendo uma aliana em seu dedo, Dallas. Est querendo me dizer que est se guardando para a garota certa?
Dallas ficou vermelho, e seus olhos quase a fuzilaram, mas depois ele suspirou.
- Claro que no. Desculpe-me, no quis me intrometer. Podemos terminar a dana ou vai ficar parada no meio da pista?
- Quando pretende voltar de vez para casa? - Annebelle quis saber, retomando o passo.
- Espero que no final de agosto. Mas virei algumas vezes, antes. Decidi construir um chal na colina com vista para o pasto norte. As obras tero incio dentro de um ms, e ficarei supervisionando de longe. Quando voltar, cuidarei dos detalhes de acabamento.
- Que tipo de chal ser?
- Um bem aconchegante, com bastante madeira e vidro. Quem sabe voc no me ajude a decor-lo?
- No prefere que uma decoradora profissional o faa? - brincou.
- Sabe muito bem o que eu penso sobre essas bobagens, Annebelle.
A msica terminou, e eles pararam de danar. Dallas a fitava com orgulho.
- Desejo-lhe tudo de bom. Voc sabe disso, no? Quero v-la feliz.
- Sei que sim, Dallas. Obrigada por se preocupar comigo, meu grande amigo. Nem imagina como seu carinho  importante para mim.
Annebelle observou uma emoo no rosto dele que no compreendeu direito, mas logo sumiu. Talvez fosse coisa de sua imaginao.
- Divirta-se com Raymond, se  isso o que deseja, Annebelle. Caso no nos encontremos mais, feliz Ano-Novo.
- Feliz Ano-Novo, Dallas.
Na ponta dos ps, ela beijou-lhe a face em um gesto carinhoso. Dallas acenou, despedindo-se, e caminhou em direo  sada. Pelo visto, no ficaria at o fim da festa. Annebelle torceu para que ele algum dia encontrasse algum especial.
Raymond conversava com um homem  mesa quando ela voltou.
- Dallas foi embora? - Raymond se levantou.
- Acho que sim.
- Que bom... Assim no precisarei mais me preocupar em ser interrompido. Est tocando outra melodia lenta. Vamos?
Alm de estar nos braos de Raymond, Annebelle estava pronta para muito mais.
Os dois danaram por muito tempo, indo at a mesa de vez em quando, mas sempre ansiosos pela proximidade que a dana lhes proporcionava.

Estava perto a meia-noite quando Raymond afastou Annebelle do demais casais que ainda danavam. Pegou-a pela mo, levando-a para trs de uma pilha de feno.
- O que h de errado? - perguntou Annebelle, quando, enfim, pararam em um canto isolado.
- Nada. S achei que poderamos ter um pouco de privacidade quando da passagem do ano.
Algum comeou a contagem regressiva. No era preciso uma bola de cristal para se adivinhar o que Raymond planejava.
-  uma tima idia - ela concordou, sorridente.
Olhando para cima, Annebelle antecipou o beijo, pronta para desfrut-lo. Mas, quando Raymond puxou-a para perto, escutaram algumas risadas.
- Acho que algum teve a mesma idia que ns - disse uma voz masculina.
Annebelle se afastou de Raymond e deparou com Sharon Conner, uma de suas colegas de escola, na companhia de um rapaz robusto.
- Ol, Sharon - cumprimentou-a, tentando esconder o desconforto.
A jovem respondeu com um sorriso.
- Vamos procurar outro canto, querido. Annebelle foi casada com Pete Lawrence - explicou para o namorado, alto o suficiente para os dois escutarem. - Ouvi dizer que o sujeito  um errante, mas qualquer um  melhor do que Pete.
Soou a meia-noite. Sirenes tocaram, as pessoas gritavam e batiam palmas, e Annebelle sentiu-se como se o mundo todo soubesse tudo sobre ela.
Por que inventara de vir  festa com Raymond, expondo-se  maledicncia? Por que achou que poderia se divertir sem ningum comentar nada?
- Annebelle? - chamou Raymond, olhando-a com preocupao.
-  melhor irmos para casa.
Mas ele segurou-a pelos ombros, decidido a saber mais.
- O que aquela mulher quis dizer?
- Aqui no  o lugar...
Em meio  gritaria, Raymond ergueu a voz:
- Acho que chegou o momento de voc me contar como era seu casamento. Posso esperar uma hora ou mais, caso queira danar de novo, mas vamos conversar ainda hoje.
Dessa vez no teria como escapar das perguntas de Raymond a julgar pela determinao que sentia nele. Por um lado, tinha a sensao desconfortvel de estar sendo invadida, m&s por outro sabia que no havia como adiar mais falar do assunto.
- No quero mais danar. Vamos embora.

O aquecedor no era suficiente para espantar o frio que entrava na caminhonete.
Annebelle sentava-se bem perto da porta, como se precisasse do espao entre eles, como se estivesse a quilmetros de distncia.
Raymond achou melhor esperar chegarem  fazenda para comear a conversa.
Parou a picape ao lado da de Marvis e Rod, que tinham se oferecido para ficar com as crianas, alegando que poderiam muito bem comemorar o Ano-Novo assistindo  televiso.
Annebelle entrou antes.
- Amanda acabou de dormir - informou Marvis. - Mark ficou acordado at as dez jogando cartas conosco. Espero que no se importe.
- De forma alguma.
Depois dos costumeiros cumprimentos, o casal partiu, deixando-os a ss. 
Raymond tirou a gravata e colocou-a na mesa, depois abriu dois botes da camisa.
- Imagino que queira dar uma olhada nas crianas.
Annebelle assentiu.
- Vou com voc para dizer boa-noite para Mark, caso ele acorde.
Os dois subiram juntos a escada. Annebelle se dirigiu a sua sute, e Raymond abriu a porta do quarto de Mark.
O pequeno dormia profundamente, mas tinha se descoberto. Entrando, Raymond cobriu-o e acariciou-lhe os cabelos. Se fosse pai dele, poderia repetir o gesto todas as noites, sem se cansar.
Mas no sabia como era ser pai. Nunca ningum o ensinara. E para ser pai era preciso ficar bastante tempo em um mesmo lugar.
Ao sair, viu que a porta dos aposentos de Annebelle estava aberta. Diante do bero, ela olhava para a filha dormindo.
Raymond parou ao lado, ciente da tenso que a assombrava, imaginando quo fortes eram seus batimentos cardacos.
- Amanda no  um milagre, Raymond? Quando a pego no colo, quando a amamento, s vezes no consigo acreditar que  minha filha. E foi voc quem a ajudou nascer.
O nascimento de Amanda com certeza foi o acontecimento mais importante de sua vida, mas, olhando para a pequena, Raymond lembrou que era fruto da unio de Annebelle e Pete. No podia esperar mais nenhum segundo para fazer as questes que danavam em sua mente.
- Voc ainda ama seu falecido marido?
Annebelle arregalou os olhos, mostrando-se surpresa com a possibilidade.
- No, no amo mais Pete. Quando ele morreu, meus sentimentos por ele quase j no existiam mais.
Raymond achou melhor comear pelo incio.
- Como se conheceram?
Afastando-se do bero, Annebelle acomodou-se na ponta do leito.
- Na faculdade. Pete estava dois anos na minha frente. Assim que se formou, conseguiu um emprego em um supermercado, em Billings. Comeamos a sair juntos e, quando me formei, ns nos casamos. Eu nunca me dei conta...
- Continue - pediu Raymond.
- Pete no era bem quem eu achava que fosse. No havia nada de terrvel em nosso casamento. Imagino que as pessoas at pensassem que vivamos bem. Mas Pete... Acho que ele nunca quis as responsabilidades de ser marido ou pai. Aps nos casarmos, nos mudamos para c, que era a casa de papai. Logo no comeo, percebi que Pete no era de trabalhar muito. Papai nunca falou nada, mas sei que se preocupava comigo. Pete queria que eu cuidasse dele e de tudo o mais, desde lavar suas roupas at...
Annebelle ficou rubra.
- Sexo? - Raymond se acomodou ao lado dela.
- No quero entrar nesses detalhes. Bem, achei que com um filho tudo seria diferente. Entretanto, nada mudou depois que Mark nasceu, a no ser pelo fato de eu passar a ter mais trabalho. Tentava manter Pete contente, sabe? Procurava satisfazer todas suas necessidades, mas chegou um momento em que no compreendia de que ele precisava. Pete quase nem conversava comigo... Ficava assistindo  tev, quando no estava em outro lugar.
Annebelle suspirou.
- Era como se eu estivesse ali para atender a todos seus desejos, e ele nunca fazia nada por mim. Um ano antes de morrer, Pete comeou a beber mais. Foi por isso que perdeu o controle do carro na estrada.
Havia vrias coisas que Raymond queria dizer, mas compreendeu que era melhor continuar calado. No queria mago-la ainda mais ou ofend-la com algum comentrio, mas era evidente que fora uma unio frustrada.
- Por que no se separou dele?
- Porque acreditava nos votos eternos. Achava que se continuasse tentando... - Meneou a cabea, desconsolada. - Amanda foi um acidente. Eu no sabia que estava grvida quando Pete morreu.
- No sei muito sobre casamentos, mas suponho que no basta uma pessoa tentar. Permita-me uma indiscrio, Annebelle: Pete era... violento?
- No, de jeito nenhum. Apenas o que eu sentia por ele mudou. Depois do primeiro ano de casada, percebi que no estava apaixonada. Queria a segurana de ser parte de um casal, como as outras garotas, e achei que o fato de Pete ser mais velho me proporcionaria isso.  por esse motivo que agora prezo tanto minha independncia.
O silncio os rodeou por um longo momento.
- Ele no foi um bom pai para Mark, no ?
- Voc lhe deu bem mais ateno e carinho durante esse pouco tempo do que Pete em toda a vida.
A maneira como Annebelle o olhava fez com que o corao de Raymond disparasse de tal forma que ele quase nem conseguia respirar. Aproximou-se dela e envolveu-a com um carinhoso abrao.
- No comemoramos o Ano-Novo, Annebelle. Ainda quer faz-lo?
- Sim - respondeu, quase um sussurro.
Quando os lbios se encontraram, Raymond sentiu-se nas nuvens. Na festa, planejara cortej-la, ir com calma, aprofundar qualquer tipo de ligao que existisse entre eles. Mas naquele instante no conseguia controlar seus impulsos, calorosos e apaixonados.
A pouca luz do quarto, o silncio da noite, o vento soprando contra a janela eram um convite  intimidade. De repente, sem saber como, estava deitado ao lado dela na cama, acariciando-lhe o rosto, movimentando sua lngua at que a realidade escapou de seu controle.
Annebelle era mais doce que o mel, sua pele, mais macia do que ptalas de rosa, seu perfume to envolvente que o enlouquecia. Ou seria a luxria que fazia sua cabea girar e seu corpo doer?
Sem poder esperar mais, deslizou a mo at os botes da blusa dela. Comeou a abrir um por um e sentiu-a puxando sua camisa para fora da cala. Respirou fundo quando Annebelle acariciou-lhe o trax.
Mas, quando Raymond tocou-lhe o seio, ela o interrompeu.
- Raymond, eu no posso. - Empurrando-o, Annebelle sentou-se. - Quer dizer, estou amamentando e...
- No  nenhuma novidade, Annebelle. Voc est me. dizendo para ter cuidado? Est dizendo...
- ...que no posso.
- Por que no?
- Achei que podia ficar aqui com voc, que poderia deixar que me beijasse, que me tocasse, mas...
- Ainda  muito cedo?
- No  isso, Raymond.  que mudaria muita coisa entre ns. No consigo dormir com um homem e esquecer o que aconteceu na manh seguinte. Ser que  to difcil de entender?
Claro que ele compreendia, e daria tudo para mudar sua forma de pensar. Mas sabia que era impossvel.
- Ento, o que aconteceu hoje  noite?
- Acreditei que tudo poderia ser diferente. Peo desculpas.
- No tem por que se desculpar. Nenhum dos dois tem. Os sentimentos que existem entre ns comearam a se formar desde o dia em que cheguei aqui, por isso acho que talvez esteja na hora de eu ir embora. Disse a Mark que o acompanharia ao festival, e vou faz-lo. E no final de janeiro partirei.
Annebelle se manteve em silncio enquanto abotoava a camisa.
- Se  o que voc quer...
Raymond se levantou e a fitou.
- Eu quero. Por ns todos. Mas acho melhor ainda no contarmos nada para Mark. Vamos esperar mais um pouco.
- Se  o que voc quer - repetiu Annebelle, corts.
Antes deix-la, Raymond parou por alguns instantes ao lado do bero de Amanda. Em seguida, fechou a porta e desceu as escadas, pensando que o novo ano no comeara nada bem.

Dirigindo-se a Denver, Hunter Coleburn no via a hora de pousar para telefonar para o irmo e marcar um encontro para conhec-lo.
Era a primeira semana do ano e, depois de observar a noite fria pela janela do jato particular, tornou a concentrar-se nos papis que tinha em mos.
Terminara as negociaes antes do previsto, e poderia ter esperado at o dia seguinte para retomar a Denver. Mas, assim que chegara a Nova York, seu cliente colocara o avio a sua disposio, e Hunter tinha motivos de sobra para querer voltar o mais depressa possvel.
Apesar de estar olhando para o contrato, tinha toda a ateno voltada para Raymond Coleburn. 
Ficara atordoado ao saber que tinha um irmo. E gmeo!
Era o segundo acontecimento mais importante de sua vida. O primeiro...
Durante toda a infncia, sempre achara que no pertencia  famlia. John e Marta Morgan tinham lhe dado tudo do bom e do melhor, assim como para seus dois filhos naturais. Mas Hunter sempre se sentira diferente de seu irmo Larry e da irm Jolene.
Larry fazia questo de lembr-lo de que era adotado. E os olhos de John Morgan no brilhavam da mesma forma quando fitavam o filho adotivo. Era um sentimento de solido inexplicvel, e, pelo visto, dentro em breve descobriria o motivo.
Quando seus pais lhe telefonaram em Londres, pouco antes do Natal, Hunter, enfim, descobriu o segredo que tinham lhe escondido por tantos anos.
A conversa estava gravada em sua mente:
- Hunter, sua me e eu temos algo para lhe contar. Ela est na extenso - disse John Morgan.
Hunter sentiu um aperto no corao. Ser que um dos dois estava doente? Ser que acontecera alguma coisa com Larry ou Jolene? Mas, antes que pudesse perguntar, Marta comeou a explicar:
- Filho, ns escondemos algo de voc durante todos esses anos. Achamos que tinha sido a melhor soluo, mas...
- O que , me?
- Voc tem um irmo gmeo - respondeu John.
- Um irmo gmeo?!
- Sim. Ele se chama Raymond - prosseguiu John Morgan. -  muito complicado tentar explicar por telefone, mas o rapaz est a sua procura. Colocou um anncio no jornal, e eu lhe escrevi. Recebemos uma foto dele e... vocs dois so parecidssimos. S a cor dos cabelos  um pouco diferente.
Absorvendo a idia de ter um irmo que no conhecia, muito menos sabia da existncia, demorou alguns minutos para tomara a falar:
- Por que vocs nunca me disseram nada sobre isso?
- No sabamos se ele ainda estava vivo. Deveramos ter adotado vocs dois, mas aconteceram muitas coisas de uma vez... Raymond contraiu pneumonia e foi hospitalizado. Sua me descobriu que estava grvida, e eu consegui um emprego em Montana. Tivemos de tomar decises que eram melhores para ns, na poca, Hunter. O orfanato no permitiu que continussemos com os trmites da adoo de Raymond devido a seu estado de sade. Disseram que, se ele sobrevivesse, encontrariam uma boa famlia para adot-lo. Com um novo beb a caminho e a mudana, nosso oramento estava bastante apertado.
- Ento, vocs deixaram Raymond para trs.
- Sim.
Hunter respirou fundo.
- Sabem onde posso encontr-lo, pai?
- Sabemos. Ele deixou o telefone de uma fazenda, a Double Blaze, em Billings.
- Hunter?
- Sim, me?
- Conversaremos com mais calma quando voc voltar.
E agora estava voltando. Ser que ainda havia o que discutir? Seus pais tinham deixado seu irmo gmeo para trs, e Hunter no sabia se conseguiria perdo-los por isso.
Ele no era o tipo de homem que acreditava em conexes psquicas. No conseguia crer no que no podia ver, tocar ou sentir. Entretanto, desde que escutara a voz de Raymond...
Talvez encontrar o irmo pudesse suprir seu vazio, como acontecera quando conhecera sua Eve, anos atrs. :
Deixando mais uma vez a lembrana nos recnditos de sua memria, Hunter concentrou-se no encontro com o irmo.
O piloto informou que nevava em Denver, mas o aeroporto estava aberto. Pousariam dentro de dez minutos.
Hunter recolheu os papis espalhados. No conseguira trabalhar direito devido  distrao. Colocou os documentos no envelope, depois em sua pasta.
Baixou as mangas da camisa e abotoou os botes do punho, ansioso por pousar em terra firme, para poder telefonar para seu irmo.
Tomado pela ansiedade, esqueceu-se de fechar o cinto de segurana e ficou planejando a viagem a Montana e quanto tempo poderia ficar. Uma semana, talvez dez dias. Tinha uma reunio importante para fechar uma incorporao no dia vinte.
Hunter nem notou a descida da aeronave. De repente, o jato estava se chocando contra a pista de decolagem. O solavanco o jogou para longe de seu assento, e ento tudo escureceu.


CAPTULO IX

Annebelle colocou em cima da mesa a roupa que tirara da mquina de lavar. Ao ver uma cueca de Raymond, lembrou-se da noite do ano-novo, dos momentos de prazer entre eles em sua cama e da distncia que se criara entre os dois desde ento.
Seu corao doa s de pensar que logo ele iria embora. Naquela noite, descobrira que o amava o suficiente para fazerem amor, para passar a vida toda a seu lado. Mas Raymond no era o tipo de homem que se comprometeria em um casamento, e ela no admitia outro tipo de relacionamento.
Chegava a hora do jantar quando a porta se abriu, depois bateu com a entrada tempestuosa de Mark. O garoto estivera ajudando Raymond a cuidar dos cavalos.
- Raymond falou que vamos ganhar na sexta-feira. O que voc acha, mame?
Dentro de dois dias aconteceria o Festival da Diverso na escola de Mark. O garoto estava to ansioso que no parara de falar a respeito a semana toda.
A porta se abriu de novo. Era Raymond.
- O importante no  vencer, mas sim participar, filho.
- Sua me tem razo, Mark. No far a menor diferena se ganharmos ou perdermos. - Afagou os cabelos do menino. - Mas seria timo se ganhssemos, no , companheiro? E, se nos esforarmos, no vejo motivo para no ficarmos em primeiro lugar.
Quando o telefone tocou, Raymond correu para atend-lo.
Annebelle sabia que esperava uma ligao de Hunter, pois estivera vinha se mostrando muito impaciente. Alm disso, suspeitava que ele iria embora antes do final do ms.
Aps cumprimentar o interlocutor, Raymond ficou mudo, apenas escutando. Era evidente para Annebelle que havia algo de muito errado.
Mark continuava falando sem cessar. Portanto, Annebelle entregou-lhe algumas peas de roupa e pediu-lhe que as levasse at o quarto.
- Sim, entendi - dizia Raymond. - Estarei a amanh o mais cedo possvel.
Silncio.
- No se preocupe, eu alugarei um carro e irei direto para o hospital. Se ele... Deixe para l. Mantenha acalma, sr. Morgan, ns tambm vamos rezar.
Quando Raymond desligou, Mark j tinha voltado para a cozinha.
- Sente-se, companheiro. - Raymond apontou-lhe uma cadeira. - Precisamos conversar. Sabe o irmo que lhe contei que logo iria conhecer?
- Sim.
- Ele sofreu um acidente ontem e no est muito bem. Perdeu a conscincia, e os mdicos acham que ele talvez... - Raymond respirou fundo. - Preciso ir com urgncia para Denver.
- Mas estar aqui na sexta-feira, no ?
- No, no estarei. Sei que  uma grande decepo, Mark, e prometo que, quando eu voltar, faremos alguma coisa para compensar.
Indo at o filho, Annebelle colocou a mo em seu ombro.
- Mark, voc precisa entender. Raymond no pode fazer nada.
- Eu no entendo. Voc me prometeu que estaria aqui e agora no vai estar! - Mark se afastou da me e saiu correndo para o quarto.
- Sei que o estou desapontando, mas no posso esperar at sbado. Hunter se acidentou. Estava voltando para Denver no avio particular de um cliente ontem  noite, e o jato se chocou contra um caminho, na pista de pouso. Ele quebrou a perna e est engessado, mas ainda no recobrou a conscincia. Os mdicos no sabem se vai conseguir se recuperar. O pai est desesperado.
- Mark compreender - disse Annebelle, sem ter tanta certeza assim.
- Ser mesmo? E voc? Conseguir cuidar de tudo enquanto eu estiver fora? Sinto-me como se a estivesse abandonando.
- De qualquer modo, voc no ia partir no final do ms?
A simples verdade ficou no ar.
Annebelle duvidava que Raymond voltasse se fosse para Denver. "Homens como ele se vo sem olhar para trs."
- Telefonarei para a companhia area - resmungou ele, retomando ao telefone. -  provvel que s consiga um vo para amanh de manh.
Raymond pegou a lista telefnica e colocou-a na mesinha.
O corao de Annebelle parecia estar se rompendo ao meio. Amava Raymond, e no queria que ele deixasse a fazenda e sua vida. Mas sabia que no podia fazer nada para impedi-lo.

Aquela noite, Raymond tentou conversar com Mark, e de novo na manh seguinte, mas o menino no compreendia de jeito nenhum por que ele tinha de viajar to s pressas. S entendia que o homem de quem tanto gostava estava quebrando sua promessa.
A despedida de Raymond e Annebelle foi breve. Ele no a tocara nem a beijara desde a noite do rveillon, pois imaginava que era o que ela queria. Porm, deix-la estava sendo mais difcil do que pudera imaginar.
Prometeu telefonar-lhe assim que soubesse quando regressaria, mas o que viu nos olhos dela o fez querer ficar: tristeza e saudade.
Empacotara todas suas coisas, dizendo a si mesmo que no sabia por quanto tempo ficaria no Colorado.
Ao partir de carro, ele olhou pelo espelho retrovisor e viu Annebelle parada na varanda.

No vo para Denver, Raymond sentia como se tivesse deixado um pedao seu na Fazenda Double Blaze, mas procurou centrar os pensamentos em Hunter e no que poderia encontrar quando chegasse ao hospital.
Raymond alugou um automvel no final da tarde, dirigiu at o hospital e foi para o quarto do irmo.
Sentiu um n na garganta, ao se ver parado diante da porta. Um senhor de cabelos grisalhos, muito elegante, estava sentado ao p da cama. Tinha a camisa toda amassada, na certa por ter passado a noite ali.
Do outro lado, uma senhora loira segurava a mo de Hunter. Ento, Raymond observou o rapaz deitado no leito. Sua perna engessada estava em um suporte, elevada. Havia cicatrizes em seu rosto e um tubo de oxignio no nariz. Parecia dormir. A no ser pelos cabelos pretos, era como se Raymond estivesse fitando a prpria imagem.
- Ah, meu Deus, como vocs so parecidos! - exclamou Marta, que se levantou para cumpriment-lo.
- Raymond Coleburn. - Ele estendeu-lhe a mo.
Em vez de apert-la, Marta tomou-a entre as suas.
- Sou Marta Morgan. Estamos to contentes por voc ter vindo!
John tambm se ergueu.
- No,houve nenhuma mudana no quadro. O estado de Hunter  estvel, mas os mdicos ainda no sabem dizer se ele acordar ou no.
Ao olhar para o filho, o semblante de John Morgan mostrava toda sua preocupao.
- Nossa filha foi para casa trocar de roupa e se alimentar, e Larry , nosso outro filho, s vir  noite. - John abraou a esposa, fitou Hunter de novo e depois Raymond. - Ns vamos tomar um caf.
O casal o deixaria a ss com o irmo, o que o alegrou bastante, embora no fosse bem assim que imaginara conhec-lo.
Na verdade, no era nada daquilo o que esperava. Forou um sorriso para os Morgan e, uma vez a ss, foi at a cama.
Seu irmo gmeo...
Raymond sentou-se na cadeira para continuar a viglia. No sabia o que dizer.
Colocou a mo no brao do irmo e murmurou:
- Estou aqui, Hunter.

Raymond conheceu os irmos de Hunter. Como os pais, Jolene o cumprimentou com carinho. Tinha os cabelos escuros iguais aos de John. Larry Morgan, por outro lado, mostrou-se distante. Apesar de muito parecido com a me, no tinha a mesma personalidade socivel.
Raymond imaginou que tambm estava preocupado, como todos os demais. Os Morgan eram bastante simpticos, o tipo de famlia com o qual ele sempre sonhara. Ser que o irmo o aceitaria em sua vida, visto que j tinha tantas pessoas queridas?
Na tarde de sexta-feira, Raymond sentou-se ao lado de Hunter, de novo. John e Marta insistiram em hosped-lo em sua residncia. A princpio, ele recusou, mas decidiu aceitar, pois percebeu que os dois ficariam muito desapontados se fosse para um hotel.
Jolene lhe dissera que a me tinha necessidade de sempre estar cuidando de algum. E, como no podia fazer nada por Hunter, a estada de Raymond em seu lar a ajudaria a lidar com a situao. Desse modo, conversara com a mulher, contando-lhe um pouco de sua vida, e comera a omelete que ela lhe preparara.

Por volta das duas horas da tarde, Marta saiu para dar uma volta, deixando Raymond com o irmo. Ao consultar o relgio, imaginou que Mark estaria fazendo seu boneco de neve.
Ainda sentia-se mal por ter sido obrigado a partir daquela maneira, mas, como Annebelle dissera, ele iria embora, de uma forma ou de outra.
Observou o irmo, rezando para que sobrevivesse, para que voltasse a ser saudvel. E de repente percebeu que querer talvez no fosse suficiente. Deveria diz-lo em voz alta, apresentando-se para aquela pessoa com quem compartilhara nove meses dentro de um mesmo tero.
- Hunter, sei que seu pai e sua me conversam bastante com voc, mas no me sinto muito  vontade para faz-lo. Entretanto, sei que est na hora de deixar essas tolices para trs. Voc  o irmo que nunca conheci, a famlia que nunca tive. No pode ficar assim bem agora que nos encontramos. Hunter, est me escutando?
Olhando-o com ateno, Raymond procurou por algum sinal de compreenso, alguma coisa que mostras-se que ele queria voltar ao mundo dos vivos. Imaginou ter visto as plpebras do irmo tremerem.
- Est me ouvindo, Hunter? Mostre-me que sim. Acorde para que eu possa lhe dar um abrao.
A princpio, Hunter no respondeu. Mas ento um msculo sob a mo de Raymond saltou e, num rompante, seu irmo abriu os olhos.
-  um... prazer... conhec-lo... meu irmo - disse ele, com a voz baixa.
O corao de Raymond disparou. Quis gritar para chamar os Morgan e a enfermeira, porm, segurou a mo de Hunter e apertou o boto de emergncia.
- No sabe que  melhor no viajar de avio quando est nevando?
Um leve sorriso formou-se nos lbios de Hunter.
- Eu queria voltar para casa... e telefonar para voc. O piloto est bem?
- Sim. No sofreu nenhum ferimento grave. E voc?
- Estou com uma dor de cabea terrvel. E com muita sede.
Raymond pegou um copo na mesa ao lado e o encheu de gua. Depois, ajudou o irmo a tomar alguns goles. Emocionado, sentiu um vnculo que jamais conhecera.
- Seus pais foram dar uma volta. Daqui a pouco aparecero.
Hunter se deitou de novo.
- Ontem conheci seu irmo e sua irm  continuou Raymond, dando tempo para Hunter poder se orientar.
- O que achou deles?
Antes que Raymond pudesse responder, a enfermeira entrou no quarto. Checou os sinais vitais e abriu um belo sorriso.
- Vou ligar para o mdico.
De novo sozinhos, os irmos se olharam por alguns instantes e sorriram.
-  estranho, no?
- O qu? Olhar para outro ser humano e ver a mim mesmo? Sim, mas acho que somos mais diferentes do que parecidos, Hunter. Nossas vidas so diferentes.
- Talvez.
Houve um longo silncio.
- Ento... Voc ia me dizer o que achou de minha famlia.
- Seus pais so maravilhosos. E Jolene tambm me tratou muito bem. Com Larry, no tive oportunidade de conversar direito.
Hunter cerrou as plpebras e, em segundos, tornou a abri-los e encarou Raymond.
- Eu sempre me senti adotado. Por esse motivo, sempre me senti... s. Acho que  algo difcil de se compreender.
- Entendo o que  sentir-se s. Na verdade, s conheci a solido at h pouco. Mas agora ser diferente. O simples fato de conhec-lo j me deu uma grande alegria.
- Meu pai e minha me contaram o que aconteceu naquela poca, Raymond? Por que fomos separados? 
Raymond balanou a cabea. 
- Teremos tempo de sobra, mas acho que eles devem lhe dizer tudo. At quando pode ficar? 
Assim que soubesse que o irmo estaria bem, Raymond decidiu voltar para Annebelle e Mark. Tinha de faz-lo.
- Dessa vez no poderei me demorar muito, pois tenho assuntos pendentes em Montana. No entanto, assim que resolv-los, voltarei para c. 
Primeiro precisava certificar-se de que Annebelle conseguiria cuidar do rancho sem ajuda.

As contas do hospital referentes ao tratamento a que Annebelle fora submetida aps o nascimento de Amanda chegaram um dia aps a partida de Raymond. Pelo visto seus problemas tinham apenas comeado.
A situao j no era das mais fceis, mas aquela conta fora a gota dgua. Decidida, pegara o carto da corretora de imveis e marcara um encontro com o corretor para o mesmo dia. 
Na tarde de domingo, sentou-se  mesa da cozinha com recibos e contas para tentar organiz-los. Mas no via alternativa a no ser vender a fazenda.
Alm disso, no conseguia conciliar as tarefas da propriedade e cuidar dos filhos. Contudo, tinha de tentar. Afinal de contas, crescera ali. S de pensar em partir...
Seus olhos s encheram de lgrimas, mas Annebelle no podia se permitir ser fraca naquele momento. Tinha de tomar decises pensando no futuro dos filhos.
Mudar-se-iam para Billings, onde ela tentaria arrumar um emprego em uma loja, ou como secretria. Tambm poderia fazer um curso de computao. Faria tudo o que estivesse a seu alcance para assegurar o melhor para Amanda e Mark.
Quando o telefone tocou, Annebelle levou um susto, disse a si mesma para no esperar escutar a voz de Raymond quando tirou o fone do gancho.
Desde a quinta-feira em que ele partira, Annebelle ficava ansiosa quando o aparelho tocava. Mas por que Raymond lhe telefonaria se no tinha a inteno de voltar? E no tinha a menor dvida de que ele no retomaria para a fazenda.
- Annebelle?
- Ol, Raymond... - Respirou fundo, tentando manter-se calma.
- Como vai? - A preocupao dele era evidente.
Annebelle percebeu que no queria seus cuidados, mas sim seu amor. E para o resto da vida. Mas como isso era impossvel...
- Estamos bem.
- Mark aproveitou o Festival da Diverso?
- Ele no foi.
Annebelle fizera de tudo para tentar convencer o filho a ir. Pedira at a Rod O'Neill para acompanh-lo, mas de nada adiantou. Se no podia ir com Raymond, no iria com ningum.
- O garoto ainda est bravo comigo.
- Eu lhe expliquei vrias vezes o que aconteceu com seu irmo, mas Mark ficou decepcionado demais. Como est Hunter?
- Ele ficar bem.
Annebelle notou que havia um grande alvio na entonao de Raymond, alm de um imenso contentamento. Pelo visto, encontrara o vnculo que sempre lhe faltara.
- Que timo!
- Annebelle?
- Sim?
- Pare de falar comigo como se fssemos estranhos. Voltarei dentro de alguns dias.
- Voc vai voltar?! - perguntou ela, quase no conseguindo crer no que escutara.
- Eu lhe disse que o faria.
Sendo assim, Annebelle tinha algumas novidades para lhe dizer.
- Raymond, estou colocando o rancho  venda e vou me mudar para Billings com as crianas.
- Como? O que aconteceu?
- Chegou a conta do hospital, e andei analisando minha situao financeira. No posso ficar aqui, Raymond. De jeito nenhum. Tenho de tentar construir um patrimnio para meus filhos, e no ficar ligada ao passado.
Eles ficaram em silncio por alguns minutos.
- Estarei a amanh, e conversaremos sobre o assunto.
- No h mais o que conversar.
- Sim, h, Annebelle. Portanto, no faa nada de que possa se arrepender mais tarde. Espere at eu chegar a. Entendeu?
Annebelle j tinha do que se arrepender. Perdera seu corao para Raymond Coleburn.


CAPTULO X

Ao avistar a casa, Raymond pisou fundo no acelerador, apesar de toda a neve na estrada. Sentira muito a falta de Annebelle e queria chegar logo. Ficara arrasado com a idia da venda da fazenda, mas no sabia explicar direito por qu.
A conversa que tivera com Hunter e os pais dele sobre o que acontecera trinta e um anos atrs lhe parecia distante agora. Embora no o tivesse dito, Raymond percebera o ressentimento do irmo por os pais o terem deixado no orfanato.
Uma vez sozinhos, disse-lhe para no se preocupar com isso, visto que agora tinham se encontrado e nada mais os separaria. Entretanto, a tristeza que Raymond vira nos olhos de Hunter no se devia ao ocorrido ou ao acidente. Ainda demoraria um tempo para se conhecerem melhor, para se descobrirem.
Raymond estacionou, pegou sua mochila e correu para a residncia. Abriu a porta da cozinha e foi recebido por uma cena da qual sentira muita falta: Mark sentado  mesa fazendo a lio de casa e, como sempre, um aroma maravilhoso preenchia o ambiente.
Annebelle mexia uma panela no fogo, e tudo o que ele queria fazer era peg-la nos braos e ench-la de beijos. Porm, ficou ali, deliciando-se com seu sorriso. Ela parecia contente por v-lo.
- Como foi o vo?
Raymond deixou a mochila no cho, tirou o chapu e pendurou-o junto com sua capa no cabide.
- Tranqilo. Ol, Mark, tudo bem?
O menino deixou o lpis na mesa e se levantou.
- Vou para meu quarto.
- Raymond est falando com voc, querido. No seja mal-educado.
O menino olhou para a me depois para Raymond.
- Ol, Raymond. Agora posso ir para meu quarto?
- Acho que antes teremos que conversar, Mark. Fiquei sabendo que voc no foi ao festival.
- Eu no quis ir.
Raymond foi at a mesa e sentou-se em uma cadeira, ficando quase da mesma altura do garoto.
- Sinto muito por no ter podido acompanh-lo, mas voc deveria ter deixado sua me ligar para o Rod.
- Rod no ... - comeou ele. - Rod no  como um pai. E todas as outras crianas estariam com seus pais na escola.
As palavras de Mark surtiram o efeito de uma punhalada no peito de Raymond, e ele se deu conta do quanto magoara o pequeno.
- Ser que posso tentar consertar meu erro?
- Como? - Mark mostrou-se interessado.
- Vou pensar durante a noite. Pode ser?
O menino ponderou por alguns instantes, depois concordou.
Amanda, ento, comeou a chorar.
- Direi para ela que voc j vai, mame. - E Mark saiu correndo.
Annebelle desligou o fogo e, quando ia para a sala, Raymond segurou seu brao.
- Deixe-me dar-lhe o dinheiro para pagar as dvidas.
- Voc no faz idia de quanto seja.
- E voc no faz idia do quanto economizei. Trabalho desde os dezoito anos e quase no tive gastos.
- E por que daria suas economias para mim?
- Porque no preciso delas, mas voc sim.
- No posso aceitar, Raymond. Tenho de comear a construir uma vida sozinha, com meus filhos.
- E se for um emprstimo?
- De jeito nenhum. O motivo de eu ter decidido vender o rancho  por no agentar mais ter dvidas. Seja presente ou emprstimo, eu estaria em dvida com voc. Mas agradeo muito por sua bondade.
Raymond continuou com a mo no brao de Annebelle, querendo toc-la com menos casualidade e mais intimidade.
- Quer vender a propriedade?
- No, claro que no quero vend-la! Todavia, no vejo outra soluo. J conversei com um corretor e vou assinar a papelada amanh. Segunda-feira a fazenda estar  venda.
- Por que no quer aceitar meu auxlio? - Ele queria chacoalh-la para que compreendesse, beij-la e satisfazer sua saudade; tudo ao mesmo tempo.
- Porque voc j me ajudou demais. Est na hora de prosseguirmos nossos caminhos.
Annebelle tinha razo, e seu plano era ir embora dali. Mas Raymond no estava contente com a deciso que tomara.
O grito vindo da sala reverberou, e Annebelle se soltou de Raymond.
Desde a noite de Ano-Novo ele percebia que Annebelle tentava a todo custo tir-lo da cabea. E sabia por qu. Porque compromissos instveis no tinham lugar em sua vida.
Pelo jeito, voltaria para Denver bem antes do esperado.
Raymond sabia que a importncia do festival para Mark devia-se mais,  atmosfera do que ao acontecimento em si. As crianas, a diverso, o barulho... Sendo assim, decidiu criar a mesma atmosfera, s que em menores propores.
Depois de pedir permisso para Annebelle e conversar com os pais dos amigos do garoto, planejou uma tarde de diverso na fazenda. Embora os pais tambm tivessem sido convidados, eles preferiram apenas deixar os filhos.
Por sorte, o tempo tinha cooperado, e puderam brincar quase a tarde toda, fazendo bonecos de gelo, passeando de tren, inventando guerra de bolas de neve.
Depois, foram para dentro, onde comeram sanduches e bolos feitos por Annebelle. Assaram at marshmallow na lareira.
Mais tarde, no celeiro, Raymond ensinou-lhes truques com corda. Mark parecia estar se divertindo muito e, quando todos se despediram, Raymond sups que a tarde agradara a todos.
Quando o ltimo menino se foi, Raymond encontrou Mark em seu quarto, calando os tnis.
- Gostou de nossa tarde de brincadeiras?
- Sim. - O garoto amarrou um cadaro.
- Aposto que foi to engraado quanto o Festival da Diverso. - Raymond esperava que Mark concordasse.
- Os pais no estavam aqui.
- Mas eu sim.
- , mas voc brincou com todos ns. No era como... se eu estivesse fingindo que voc era meu pai por um dia.
A palavra "fingindo" o aborreceu, bem como tudo o que Mark falara. Porm, no tinha nada a dizer.
Quando terminou de colocar os tnis, Mark olhou para cima.
- Queria que voc fosse meu pai.
Raymond ficou surpreso com o que escutou.
- No sei ser pai, Mark. Nunca tive um. E tambm no estive entre crianas que os tivessem. Precisa de algum que saiba como trat-lo, amigo.
- Voc podia ser meu pai, se quisesse. Mas acho que no quer.
- No depende s de mim - Raymond afirmou, na defensiva. - Sua me tambm tem uma opinio.
- Mas eu sei que voc pode convenc-la.
Antes que tivesse tempo para responder, Annebelle chamou:
- Raymond, telefone.  seu irmo.
- Continuaremos essa conversa mais tarde. - E Raymond se ps a descer as escadas, temendo que tivesse acontecido algo em Denver.
Mas no havia nada de errado. Hunter ligara para avisar que recebera alta e que estava na casa da me, a conselho do mdico.
- Vou ter de agentar a mame me mimando o tempo todo - brincou.
- As mes so assim, Hunter .
- , eu sei. Vou parar de reclamar. S lhes devo agradecimentos por tudo o que fizeram por mim.  como se... - De repente, ele mudou de assunto: - Quando voltar para c?
Raymond olhou para Annebelle, sentada no sof da sala com a filha no colo.
- Ainda no sei direito. Eu lhe telefono avisando, daqui a alguns dias.
Depois de desligar, Raymond foi at a sala e ficou admirando-a ninar Amanda.
- Est tudo bem? - ela quis saber, ao perceber que tinha companhia.
- Sim, Hunter j foi para casa. Pelo visto, est melhor, mas ter de ficar alguns dias com os pais.
A conversa com Mark o deixara impaciente e sentindo-se mais culpado por ter de partir.
- Quero comprar uma bicicleta para Mark.
- Por qu, Raymond?
- Porque ele ainda no me perdoou por eu ter partido. Divertiu-se hoje  tarde, mas disse que no foi a mesma coisa que o festival na escola.
- E acha que uma bicicleta resolver tudo?
- Ora, Annebelle, no sei, mas pelo menos vai alegr-lo um pouco.
- Voc j contou para ele que vai embora?
Ir embora... O pensamento no o incomodara antes. Mas tambm no pensara o que faria depois que deixasse a Fazenda Double Blaze, esquecendo a linda Annebelle e seus dois filhos encantadores para trs.
- No, ainda no.
- Vou comear a limpar o sto amanh. O corretor trar trs pessoas na segunda-feira, para conhecer o rancho. Ele acha que no terei problemas em vender a propriedade se o preo for justo.
- Gostaria que reconsiderasse a minha oferta.
Annebelle pareceu confusa.
- No posso aceitar seu dinheiro, Raymond. No posso... - Respirou fundo e olhou para o beb em seus braos. - Quero comear uma nova existncia. Ser melhor para mim.
A idia de Annebelle longe dele o incomodou. Desejava...
Sabendo que os desejos no costumavam se tornar realidade, Raymond desistiu de insistir.
- Irei cuidar dos cavalos.
Annebelle no o fitou, o que o levou a crer que no se importava com o que ele fizesse.
Um soluo escapou-lhe dos lbios assim que Raymond saiu da cozinha. Annebelle manteve a filha contra o peito, confortando-se com a pequena.
No queria que ele fosse embora, no podia nem imaginar o que seria dela sem Raymond por perto. Contudo, tambm no tinha como faz-lo ficar. Raymond lhe oferecera dinheiro, mas no era isso o que queria dele.
Queria Raymond.
Entretanto, no se achava no direito de pedir-lhe para ficar. Raymond tinha um irmo em Denver e quilmetros a percorrer antes de se estabelecer.
Se  que isso um dia aconteceria.

O sto continha um tesouro repleto de lembranas. No dia seguinte, Annebelle tentou conter o choro, aproveitando o sono de Amanda para organizar as coisas de seu pai e tambm as suas.
Enfim, sentou-se no cho e deixou as lgrimas rolarem. Chorava porque seu pai jamais conheceria a neta. Estava chorando porque adorava aquela casa, aquelas terras e tudo o que a fazenda representava.
Seu pranto rolava porque amava Raymond, apesar de saber que era um amor impossvel.
Seu orgulho a impedia de pedir-lhe para ficar. Tambm era seu orgulho que no a deixava aceitar sua ajuda financeira no lhe permitia mais uma vez amar um homem que no a amava.
Raymond era carinhoso, bondoso e seguro de que tinha muito a oferecer. Entretanto, sua criao, ou a falta dela, fazia com que no se apegasse a lugar algum. E a grande ironia era estar em busca de algo que na certa nunca encontraria, caso no criasse razes. Mas ele tinha de chegar a essa concluso por conta prpria, o que talvez nunca acontecesse.
Suspirando, Annebelle se levantou e enxugou as lgrimas. No conseguiria fazer nada, desse jeito.
Achou melhor comear a empacotar as coisas em vez de escolher o que levar. Sem dvida ficaria com os cachimbos do pai, que ainda cheiravam a tabaco. Podia se lembrar dele.fumando, enquanto lhe contava histrias.
Tambm levaria sua coleo de selos e algumas das ferramentas antigas que colecionava. Mas teria de embrulhar tudo com muito cuidado. Trouxera caixas e caixas, mas no jornal.
Quando desceu pelo quarto de Amanda, Mark apareceu correndo.
- Posso ir at o celeiro ajudar Raymond a cuidar dos cavalos?
O filho estivera brincando naquele dormitrio e, pelo visto, tinha se cansado.
- Tenho uma idia, querido. Por que no vai at o depsito e pega um pouco de jornal para mim? Enquanto isso, irei preparar um pouco de chocolate quente. Depois, voc toma uma xcara e leva um pouco para Raymond. Que tal?
Sorrindo, Mark assentiu e desceu correndo as escadas na frente da me.
Mark foi pegar seu casaco, e Annebelle ficou olhando pela janela. O cu estava completamente azul e a neve brilhava com os reflexos do sol. Embora o tempo estivesse bom, a meteorologia previra uma grande tempestade de neve para o dia seguinte.
Torceu para que estivessem errados. Quanto mais rpido o corretor pudesse mostrar a propriedade aos compradores, melhor seria, pois assim no demoraria para vender a fazenda. Alm disso, seria menos doloroso se todo o processo corresse bem depressa.
"E quanto mais rpido Raymond for embora, melhor", disse-lhe o bom senso. Porm, era difcil de acreditar.
Annebelle abriu o armrio da cozinha e pegou o chocolate em p. 
Mark calou as botas e girou a maaneta.
- Volto logo, me!
Annebelle tirou o leite da geladeira e colocou-o para esquentar, imaginando como Amanda seria com a idade de Mark.
Seria inquieta ou gostaria de brincar de bonecas? Sentiria tanto a falta de um pai como o garoto? Raymond seria to bom pai se...
"Pare! Voc s est piorando as coisas!" 
Perdida em seus pensamentos, Annebelle s se deu conta de que Mark estava demorando demais quando o chocolate quente ficou pronto. Talvez tivesse ido at o celeiro dizer a Raymond que lhe traria uma bebida quentinha. Ou quem sabe o estivesse ajudando e esquecera de lhe trazer o jornal. Mas no se esqueceria do chocolate...
Caminhando at a janela, Annebelle olhou para fora, primeiro para o curral, depois para o depsito. Quando seus olhos depararam com a pequena construo, a respirao parou em seu peito. Havia uma montanha de neve diante da portinha. Pelo visto, Mark batera a porta, fazendo com que a neve desabasse. 
Agindo por instinto, Annebelle pegou o agasalho e chutou longe os chinelos para calar as botas. Sem demora, saiu em disparada para o depsito, gritando, desesperada. 
- Mark? Mark? - Achou que o escutara gritando ao se aproximar do pequeno depsito, e o chamou de novo.
- Mame! - berrou ele, l de dentro. - No consigo sair! Tire-me daqui! 
Havia pelo menos um metro de neve impedindo a abertura da porta. 
- Estou com medo. Est muito escuro aqui dentro.
- Sei disso, meu amor. Vou chamar Raymond.
- No me deixe sozinho, mame!
- Mark, oua-me: respire fundo e conte at dez. No acontecer nada. Eu volto em um instante com Raymond.
Annebelle escutava os gritos angustiados do filho, e sentiu uma dor incrvel por deix-lo sozinho, mas Raymond o tiraria mais depressa dali.
Aos escorreges, ela comeou a gritar o nome dele assim que o viu.
- Pegue uma p! Mark est preso no depsito! Depressa! - Ento, virou-se e voltou para perto do filho.
Alguns minutos depois, Raymond apareceu com duas ps, e os dois comearam a remover a neve.
- Tenha calma, Annebelle. No adiantar nada se voc se machucar.
- Mark, meu amor, no tenha medo. Estamos cuidando para que logo voc saia da.
- Raymond, voc est com mame? - perguntou o menino com a voz chorosa.
- Sim, filho, estou aqui. Mantenha a calma.
A neve voava para todos os lados enquanto eles cavavam, parando apenas quando conseguiram desobstruir a porta.
No instante em que Raymond abriu-a, Mark correu para seus braos. Annebelle abaixou-se para enlaar o menino, e os trs ficaram ali, juntos, aliviados. Quando os olhares dos dois se encontraram, ela viu tanta emoo na expresso de Raymond que seu corao disparou.
Talvez estivesse na hora de se arriscar, de jogar seu orgulho e sua cautela pela janela...
Respirando fundo, Annebelle deixou os prprios sentimentos de lado e concentrou-se no filho, abraando-o forte, mostrando-lhe que estava tudo bem. Por fim, soltou-o e segurou seu rostinho entre as mos.
- Voc est bem, querido?
- Estava to escuro l dentro, mame... Eu gritei, chorei, mas acho que ningum me escutou. E depois achei que vocs nunca me encontrariam...
Annebelle tomou a abra-lo.
- Sempre encontrarei voc, meu filho.
Dessa vez foi Mark quem se desvencilhou do abrao e olhou para Raymond.
- Acho que eu no deveria ter chorado...
Raymond ajoelhou-se e encarou garoto.
- No h nada de mais em se chorar por um bom motivo, e voc, com certeza, tinha um.
As mos de Raymond tremiam quando ele soltou Mark e se levantou. Seu ritmo cardaco estava to acelerado que parecia que nunca mais voltaria ao normal.
Quando Mark se jogou em seus braos ao sair do depsito, Raymond visualizou como a vida deveria ser, e poderia ter essa felicidade se juntasse toda sua coragem para no permitir que escapasse entre seus dedos.
De repente, tudo ficou muito claro para Raymond. Seus sentimentos por Annebelle eram bem mais profundos do que a vontade de lev-la para a cama. Precisava dela a seu lado at o fim de seus duas. Tinha de ver aquele lindo rosto quando acordasse todas as manhs. Queria poder beij-la quando voltasse do trabalho. Necessitava do seu calor e determinao para ter um objetivo, um motivo para querer se vincular a algum lugar.
No entanto, no sabia como dizer tudo isso a Annebelle. Mas sabia que ela no adivinharia, o que o obrigava atentar ser franco e no omitir nenhum detalhe do que lhe ia na alma.
- Acho que vamos ter de esquentar o chocolate quente - disse ela, provocando o filho e olhando para Raymond. - Voc vem para casa?
Raymond precisava de cinco minutos para organizar seus pensamentos. Queria encontrar as palavras que a convenceriam a aceit-lo e a ficar com ele.
- Vou terminar de tirar a neve do telhado, para evitar mais acidentes.
Annebelle assentiu, com os olhos brilhantes. Havia alguma coisa diferente neles, notou Raymond. Talvez fosse apenas gratido.
Porm, quando ela e Mark se viraram e seguiram para a residncia, Raymond soube que aquela mulher e as crianas j moravam em seu corao.
Ao entrar na cozinha alguns minutos depois, Raymond ainda no sabia direito o que dizer, nem como. Tirou as botas e pendurou o casaco, e ento viu Mark sentado diante da televiso com sua caneca de chocolate quente nas mos.
Annebelle se levantou da mesa da cozinha e foi at o fogo.
- Est pronto para tomar uma xcara fumegante?
- No.
A resposta abrupta a fez colocar o bule de volta.
- Prefere caf?
- Annebelle, tanto faz a bebida. Eu... - Raymond parou, sentindo-se tolo e desconcertado, temendo expressar seus sentimentos mais ntimos. Mas no podia parar agora.
Eles falaram ao mesmo tempo:
- Quero que se case comigo.
- Quero que fique aqui.
- O qu? - perguntaram em unssono.
Diminuindo a distncia entre eles, Raymond segurou-a pelos ombros.
- Voc me pediu para ficar?
Ela fez que sim.
- Voc me pediu em casamento?
A incerteza dela fez com que Raymond se aproximasse mais.
- Tenho muitos hbitos para mudar, Annebelle, e precisar ter pacincia comigo. Demorei um tempo para perceber que queria algo alm de seus beijos e do prazer de uma noite de amor. Voc se tornou parte de mim, bem como Mark e Amanda. Toda vez que pensava em partir, tinha uma sensao de vazio imensa, e no compreendia o que era. Agora, enfim, a compreendi. Quero construir um futuro com voc. Quero ser o pai de Mark e de Amanda. No fazia idia do que era amor at conhec-la. Quer se casar comigo?
Annebelle tinha lgrimas nos olhos, mas sorria com um contentamento que o envolveu. 
- Sim, eu quero me casar com voc, o homem mais maravilhoso e encantador que conheci. Eu te amo, Raymond Coleburn. 
Ele no conseguia acreditar no que escutava. No podia crer que Annebelle sentia o mesmo. Ela seria sua!
Para comemorar, puxou-a para si e beijou-lhe os lbios com ternura. 
- Nossa! Nunca vi um beijo assim antes! 
Perdidos um no outro, os dois se assustaram ao ouvir o comentrio de Mark, parado ao lado deles.
Pelo visto, a vida de pai de Raymond comearia naquele instante, e no depois do casamento.
O garoto se aproximou, e Raymond colocou as mo nos ombros pequenos.
- Lembra-se de quando voc me disse que eu poderia ser seu pai se realmente quisesse?
Mark fez que sim.
- Bem, eu realmente quero ser seu pai. O que acha de eu me casar com sua me? 
- Voc ser meu pai de verdade?! E de Amanda tambm?!
- Eu gostaria muito. E como voc  o irmo mais velho e ela ainda no fala, ter de decidir por Amanda tambm.
- Sim, eu quero que seja meu pai, Raymond. E Amanda tambm! - Mark afirmou, solene. 
Raymond abaixou-se para beijar a testa do menino.
- Voc  um garoto muito especial, Mark. Agora vamos marcar a data do casamento.


EPLOGO

Trs semanas depois

Annebelle estava na pequena saleta da igreja onde se casaria dentro de alguns minutos, tentando ficar quieta, enquanto Marvis fechava seu vestido. Era de seda prola, bem discreto, com gola alta e mangas compridas, todo bordado. Sua saia armada fazia-a sentir-se uma princesa.
-  um traje maravilhoso - elogiou Marvis. - Voc sem dvida  a noiva mais linda que j vi em toda minha vida.
- Ora, Marvis, no exagere! Foi idia de Hunter. Ele tem um cliente que cria vestidos de noiva. Mandou-me algumas fotografias dos modelos, e escolhi este. Quase nem acredito que sou eu.
Annebelle tinha enrolado os cabelos e prendido um pouco. O vu era simples, preso a uma tiara. Ainda no se acostumara direito  idia de que dentro em breve seria a esposa de Raymond.
Esposa de Raymond...
Aquela noite se tomariam marido e mulher, uma nica pessoa.
Fora ele quem insistira para no fazerem amor antes das npcias, sabendo que o momento seria mais especial se esperassem. A lua-de-mel ficaria para depois, por causa das crianas, mas Raymond lhe prometera que, assim que se acostumassem a ser uma famlia de verdade, os dois partiriam para uma viagem inesquecvel, sozinhos. 
Algum bateu com toda a fora na porta da sala.
- Quem ? - perguntou Marvis.
- Sou eu, me. Posso entrar?
- Claro, Dallas - respondeu Annebelle. 
O amigo de Annebelle entrou, e os dois ficaram se olhando por alguns instantes.
- Voc est uma beleza, Annebelle. 
- Obrigada - disse, contente por ele estar l em um dia to especial.
- Estar muito ocupada recebendo cumprimentos aps a cerimnia, por isso eu vim. Queria lhe dizer que espero v-la sempre radiante como hoje. Ontem percebi que Raymond  o marido perfeito para voc.
Hunter chegara na vspera, e Annebelle fizera um jantar em sua casa. Convidara os O'Neill para conhecerem-no. A tenso que um dia existira entre Raymond e Dallas desaparecera por completo no final do encontro.
- Estou contente que tenha percebido isso, Dallas. Raymond tambm ser um pai maravilhoso para meus filhos.
- Qualquer um que olha para vocs dois juntos percebe que esto perdidamente apaixonados. - Dallas respirou fundo antes de continuar: - O irmo dele tambm  uma excelente pessoa. Quando soube que  advogado internacional, achei que no se adaptaria a nossa pequena cidade, mas Hunter foi muito simptico.
Annebelle achara Hunter mais reservado do que Raymond, porm, agradvel. Parecia querer saber tudo sobre o irmo, o que a alegrara bastante, pois Raymond tambm queria o mesmo.
Assim que os O'Neill partiram de sua fazenda, Annebelle o encontrou lendo o carto de casamento que viera junto com o presente de Marvis. Parecia to triste... Mas quando ela lhe perguntou se havia algo errado, todas as emoes sumiram do semblante de Hunter como se nunca tivessem estado l, e repetira que sentia muita honra por ter sido convidado para ser padrinho do irmo.
A msica do rgo chegou  saleta.
Dallas sorriu.
- Acho melhor eu procurar um lugar para me sentar - disse ele. Depois, beijou a amiga na testa. - Prometo que no vou interromper quando vocs estiverem danando a valsa dos noivos.
Assim que Dallas saiu, Annebelle respirou fundo.
- Acho que est na hora.
- Sim - concordou Marvis.
Rod a esperava no vestbulo. Annebelle lhe pedira para acompanh-la, por ter sido o melhor amigo de seu pai. Marvis entregou-lhe o buqu de lrios brancos, e eles entraram na igreja.
- Vamos, minha querida. - Rod acariciou-lhe a mo.

Annebelle e Rod seguiram devagar pelo tapete vermelho.
Havia poucos bancos cheios, pois os noivos decidiram fazer uma cerimnia discreta. Apenas os amigos mais prximos tinham sido convidados.
Grace Harrison se encontrava no primeiro banco, com Mark e Amanda. Danas se acomodara do outro lado, com  me, e Rod tambm ficaria ali.
Quando Annebelle olhou para o altar, deparou com Hunter, muito elegante, sorrindo.
Mas logo passou se voltou para seu futuro marido. Caminhando com segurana, abriu um lindo sorriso assim que Rod a entregou a ele.
Raymond aproximou-se da orelha dela.
- Eu te amo - murmurou.
- Tambm te amo, meu amor.
Quando olharam para o sacerdote, nada lhes parecia mais correto.
Completamente consciente da presena de Raymond a seu lado e da cerimnia que se desenrolava, Annebelle achou que seu corao explodiria de tanta felicidade.
Imagens de Raymond chegando  Double Blaze, ajudando-a no parto de Amanda, suas palavras dceis e beijos apaixonados, danavam em sua memria.
Na hora de repetir os votos, ela se virou e o olhou no fundo dos olhos, querendo expressar tudo que estava em sua alma. Tinham decidido fazer suas prprias promessas a sua maneira.
- Eu, Annebelle Lawrence, te aceito, Raymond Coleburn, como meu marido, companheiro e amigo. - Sentiu as lgrimas chegarem, mas continuou. - Prometo ficar sempre a seu lado, independente do que puder acontecer, apoiando-o e escutando-o, e respeit-lo durante todos os dias de nossas vidas. Deus o enviou para mim no momento em que eu mais precisava. Voc cuidou de Mark e de Amanda como se fossem suas jias mais preciosas. H tantas caractersticas suas que admiro... Sua honestidade, sua fora, seu carinho.
Respirando fundo, Annebelle ignorou o pranto que escorria por seu rosto.
- Prometo ser-lhe fiel e am-lo at o ltimo de meus dias.
O aperto da mo de Raymond na dela foi suficiente para lhe dizer que adorara aquela declarao. Agora seria sua vez.
- Annebelle, no tenho palavras para expressar o que sinto. Voc  meu lar, minha fortaleza. Nunca tive uma casa de verdade. Cresci querendo ter algum vnculo, pertencer a algum lugar, mas acho que no sabia direito o que isso tudo significava. E, graas a voc, descobri o que  ter uma famlia.
A emoo tambm ficou evidente em seu semblante.
- Voc  minha inspirao, minha alegria de viver, a razo de meu futuro. Adoro tudo em voc, desde sua doura at sua teimosia. Juro te amar nos momentos bons e nos momentos ruins. Prometo cuidar de voc, e de Mark e de Amanda como se fossem meus prprios filhos. E, acima de tudo, prometo-lhe ser fiel. Eu te amo, Annebelle, e me entrego de corpo e alma em suas mos.
Encarando-se, os dois absorveram as promessas e as juras sagradas que tinham acabado de fazer, at que Hunter entregou as alianas ao irmo.
Eles as colocaram com o mesmo fervor das palavras que haviam proferido. Quando o pastor lhes pediu para ficarem de frente para a prece final, os dois tinham as mos entrelaadas, como seus coraes, para toda a eternidade.
No final da cerimnia, o sacerdote pediu-lhes que olhassem para a congregao.
- Eu vos declaro marido e mulher, sr. e sra. Raymond Coleburn.
Todos comearam a aplaudir, e Mark foi correndo at eles.
- Agora voc  meu pai? - perguntou o pequeno, todo sorridente.
Raymond afagou-lhe os cabelos e abraou a esposa. Annebelle pegou Amanda das mos de Grace.
- Sim, sou seu pai.
O rostinho de Mark resplandecia.
- Ento somos uma famlia?
- Sim, uma famlia de verdade.
- Acho que voc se esqueceu de um detalhe, caro irmo. - Hunter bateu nas costas de Raymond. - O noivo no deve beijar a noiva?
Annebelle sabia que Raymond a respeitaria na frente de todas aquelas pessoas, mas estava orgulhosa com o casamento e queria prov-lo ao marido.
- Sim, deve - disse ela, olhando com paixo o marido.
Quando os lbios de Raymond tocaram os dela, Annebelle o beijou com sofreguido, ansiosa pela noite que teriam juntos, pela vida que compartilhariam dali em diante. Encontrara seu companheiro e sua alma gmea.
E no via a hora de o futuro comear.

FIM
